Apesar do investimento e das infraestruturas, por que o futebol dos EUA não avança?

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Os Estados Unidos dispõem de dinheiro, infraestruturas e mercado para subir de patamar no futebol, mas várias escolhas estruturais travam esse avanço. O modelo de ligas em franquia, o sistema de formação pago e regras salariais específicas criam barreiras que limitam a descoberta e o desenvolvimento de talentos em todo o país.

A MLS e o modelo de franquias

A Major League Soccer (MLS) funciona como outras grandes competições norte-americanas: é construída em torno de franquias cujo proprietário detém a equipa como um ativo. Isso permite, por exemplo, que um investidor transfira uma franquia para outra cidade, mude nome e identidade ou crie uma nova equipa a partir do zero mediante investimento financeiro — como aconteceu com o Inter Miami.

Estádio e placas de propriedade simbólica que representam o modelo de franquias nos EUA
O modelo de franquias transforma equipas em ativos financeiros, com impacto nas cidades.

O sistema também se apoia historicamente no draft universitário: jogadores surgem nas equipas universitárias e são depois recrutados pela liga. Mas essa via é muito diferente do percurso europeu ou sul‑americano, onde os jovens competem em contexto profissional desde idades precoces.

Para reduzir essa lacuna, a US Soccer lançou em 2007 o Professional Player Pathway, uma aposta nas academias das próprias franquias para acelerar a competição juvenil. Apesar disso, o modelo ainda enfrenta obstáculos práticos — desde o custo elevado das academias até às regras salariais que condicionam contratações internacionais.

Tetos salariais, entidade única e exceções

A MLS opera como uma single-entity structure, com tetos salariais pensados para manter a estabilidade financeira das franquias. Essa arquitetura dificulta a contratação massiva de talentos estrangeiros e limita a progressão interna de muitos jogadores norte‑americanos.

A principal saída para identificar e pagar estrelas é a figura dos designated players — a chamada “Beckham Rule” — que permite a cada franquia ter um número restrito de jogadores fora do teto salarial. Foi este mecanismo que, entre outros factores comerciais e desportivos, facilitou a chegada de nomes de grande visibilidade à MLS.

Pay-to-play: barreira económica no futebol juvenil

O sistema conhecido como pay‑to‑play exige que famílias paguem anuidades elevadas para inserir crianças em equipas e torneios. Um levantamento citado pelo The Guardian em 2024 estimou que esses custos variam, em média, entre mil e 10 mil dólares por ano consoante a localização.

Crianças num treino de futebol juvenil com sacos e equipamentos, ilustrando custos de pay-to-play
O pay-to-play impede a participação de famílias de rendimentos mais baixos.

Dados da Sports and Fitness Industry Association mostram que mais de 70% das crianças nas equipas de formação pertencem a famílias com rendimentos superiores a 50 mil dólares anuais, e 33% a famílias com mais de 100 mil dólares. Esse padrão desloca a base social do futebol juvenil para contextos mais abastados e reduz a captação em comunidades pobres ou de imigrantes.

Cobi Jones resumiu a crítica: o futebol norte‑americano está a tornar‑se exclusivo e há necessidade de oportunidades em todas as regiões do país. Gianni Infantino também se mostrou surpreso com o modelo, afirmando que “uma das coisas que me chocou aqui na América é que as crianças têm de pagar para jogar. Temos de parar com isto.”

Vozes como as de Tim Howard e Alex Morgan alertaram para a exclusão socioeconómica que o sistema gera. Hope Solo relacionou directamente a queda de prática entre crianças com o custo crescente: entre 2015 e 2018, o futebol perdeu cerca de 600 mil praticantes nos EUA — uma queda apontada por estudos do setor.

Modelo fechado e impacto competitivo

Ao contrário de praticamente todas as ligas do resto do mundo, a MLS não tem sistema de promoções e descidas. As equipas permanecem nas mesmas posições de liga independentemente da classificação anual, porque a entrada na competição é pensada como investimento com garantia de permanência.

Esse modelo protege proprietários e reduz a volatilidade financeira, mas também remove consequências desportivas imediatas para maus resultados. A ausência de mobilidade competitiva limita projetos locais de crescimento sustentado — casos de clubes que sobem da periferia para a ribalta dificilmente surgiriam num sistema fechado.

Do ponto de vista comercial, a MLS também já assinou contratos que mudaram o enquadramento da liga: em 2022, vendeu os direitos de transmissão à Apple por um acordo válido até 2032, avaliado em cerca de 2,5 mil milhões de dólares no total (aproximadamente 250 milhões por temporada). Parte dessas receitas tem sido utilizada em esquemas de partilha que ajudam a financiar contratos de jogadores de alto perfil.

Qual o efeito sobre o futuro do futebol americano?

O cenário descrito cria uma tensão clara: os EUA têm recursos e visibilidade, mas as barreiras económicas e o desenho institucional limitam a amplitude do talento detectado e desenvolvido. Sem mudanças que tornem a prática mais acessível e que permitam maior dinamismo competitivo, a seleção e os clubes norte‑americanos correm o risco de continuar dependentes de soluções isoladas para atrair estrelas, em vez de construir uma base mais profunda e representativa.

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