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Arqueólogos que escavam o subsolo do Hôtel-Dieu, no centro de Paris, encontraram um muro de origem gaulesa que pode fornecer a primeira prova material do oppidum descrito por Júlio César. Se confirmada, a descoberta ajudaria a ligar diretamente a Lutécia gaulesa à atual Île de la Cité e a reconstituir um episódio central da conquista romana.
A descoberta no coração da cidade
O Ministério da Cultura da França comunicou esta semana a identificação de uma estrutura de pedra e madeira num pátio do Hôtel-Dieu, o hospital mais antigo de Paris. A escavação arqueológica vinha sendo realizada desde fevereiro como parte da reestruturação do complexo hospitalar.
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A intervenção, dirigida por David Couturier, do Departamento de História da Arquitetura e Arqueologia de Paris, com apoio do Instituto Nacional de Investigação Arqueológica Preventiva (INRAP), tinha como objetivo localizar vestígios de habitações antigas, caminhos e camadas de ocupação medievais ou modernas.
Além desses achados esperados, os investigadores colocaram ao descoberto um segmento de muro com 20 metros de extensão e evidências claras de um incêndio intenso. Em comunicado, o governo descreveu «revestimento carbonizado, sementes queimadas e os restos de uma construção de madeira destruída pelo fogo mesmo à frente da estrutura».
Ligação possível ao oppidum descrito por Júlio César
O muro apresenta características associadas a fortificações gaulesas, o que levou as autoridades a considerarem a hipótese de que se trate de parte do oppidum dos Parisii. Até agora, a existência desse centro fortificado na Île de la Cité era sustentada sobretudo pelos relatos de César e pela continuidade do topónimo Lutetia.

Segundo as fontes romanas, César visitou Lutécia em 53 a.C. e, no ano seguinte, durante a batalha de Lutécia, o tenente Labieno enfrentou a tribo dos Parisii. Na ocasião, os locais teriam incendiado o oppidum — um núcleo de poder, comércio e controlo das rotas — para impedir a sua ocupação pelos romanos.
Apesar desses relatos antigos, não havia até agora confirmação arqueológica incontestável do local desse oppidum. A descoberta do muro e as marcas de fogo podem mudar esse panorama, desde que análises futuras corroborem a cronologia e a função defensiva da estrutura.
Reações e implicações históricas
«Podemos estar perante um dos vestígios mais importantes já descobertos para compreender a Lutécia gaulesa», afirmou a ministra da Cultura, Catherine Pégard, sublinhando a necessidade de verificação científica antes de conclusões definitivas.
Se os dados forem confirmados, a descoberta teria duas implicações centrais. Em primeiro lugar, constituiria a primeira evidência material do oppidum dos Parisii e um testemunho arqueológico da Batalha de Lutécia, apoiando a leitura histórica dos relatos romanos pelas marcas de incêndio detectadas.
Em segundo lugar, reforçaria a ideia de que a Lutécia gaulesa ocupava a mesma área da Lutécia galo-romana — ou seja, que a cidade de Paris cresceu diretamente sobre o antigo oppidum — e descartaria outras localizações propostas para esse núcleo tribal.
Próximos passos
As equipas continuarão as escavações e realizarão análises estratigráficas, estudos de materiais carbonizados e datações que poderão confirmar a cronologia da muralha e dos vestígios de fogo. Só depois desses exames será possível estabelecer com precisão a relação entre os achados e os episódios descritos nas fontes antigas.
Até lá, a descoberta permanece uma pista arqueológica promissora, que promete enriquecer o conhecimento sobre as origens de Paris sem, contudo, oferecer ainda uma resposta definitiva.











