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Carlos Queiroz chegou ao Gana com a missão clara de transformar talento em resultados e levar a seleção a um quinto Mundial seguido. Aos 73 anos, o veterano treinador reúne currículo extenso e experiência em fases finais, mas encontra um caminho repleto de contratempos e decisões de última hora.
Um percurso marcado por reinvenções e desafios
Ao longo de oito anos no Irão, entre 2011 e 2019, Queiroz deixou uma marca profunda ao estruturar a formação e integrar jogadores da diáspora. O objetivo inicial — qualificar o país para o Mundial de 2014 — foi cumprido, tal como a presença em 2018 e, novamente, em 2022. Essa etapa do seu percurso é frequentemente descrita como uma transformação do futebol iraniano.
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O regresso ao Irão em 2022 colocou-o perante o que considerou “o maior desafio da carreira”. As tensões políticas provocadas pela morte de Mahsa Amini criaram um ambiente explosivo: protestos em larga escala, repressão e cortes de internet afetaram o quotidiano da seleção. Em Doha, no Mundial do Qatar, a equipa viveu isolada no hotel, sob forte pressão externa e mediática.
Qatar, Omã e o retorno à competição
Depois de deixar o Irão, Queiroz aceitou um projeto no Qatar com objetivos de longo prazo até 2026, mas o vínculo terminou prematuramente após uma breve vitória nas eliminatórias. Seguiu-se um período mais curto no Omã, onde acabou por falhar a qualificação asiática — experiência que, apesar do desfecho, reforçou a sua vivência em jogos decisivos e fases finais.
Por que o Gana escolheu Queiroz
A nomeação no Gana surgiu num prazo apertado: cerca de 70 dias antes do Mundial, a federação recebeu perto de 600 candidaturas. O currículo do português pesou decisivamente. Kurt Okraku, presidente da Associação Ganesa de Futebol, destacou a experiência em grandes competições e o trabalho tático e disciplinar do técnico.
A apresentação foi simbólica — com danças e música tradicional — e nas palavras de Queiroz o projeto ganhou contornos pessoais. O treinador evocou Nelson Mandela para explicar a sua atitude: “Carlos, nunca perdemos. Ou ganhamos ou aprendemos”, disse recordar. Na apresentação ressaltou ainda a ideia de missão: não um trabalho rotineiro, mas um compromisso para honrar a camisola.
Preparação curta e problemas na convocatória
O período de preparação incluiu várias viagens pela Europa para falar com possíveis convocados e adiar ao máximo a lista final, como já fizera noutras grandes competições. Ainda assim, o seleccionador teve de lidar com baixas significativas. Mohammed Kudus ficou de fora; Mohammed Salisu sofreu uma rotura no ligamento cruzado em janeiro; Alexandre Djiku lesionou-se na final da Taça da Rússia pelo Spartak e também não recuperou a tempo.
Outro revés importante foi a impossibilidade de Thomas Partey entrar no Canadá, devido a um processo judicial em curso em Inglaterra. A federação ganesa protestou formalmente junto das autoridades canadianas e informou a FIFA, mas a decisão acabou por ficar num âmbito de procedimentos de imigração dos países anfitriões.
Identidade de jogo e prioridades tácticas
Perante as limitações de elenco, Queiroz concentrou-se em dois objetivos claros: criar um bom ambiente de grupo e instalar uma grande organização tática. A ideia baseia-se em defesa compacta, transições rápidas e aproveitamento das qualidades individuais, sobretudo o dinamismo de Antoine Semenyo e a eficácia nas bolas paradas de Jordan Ayew.
Nos dois ensaios antes do Mundial houve sinais mistos: derrota com o México e empate com o País de Gales. O treinador considerou esses jogos úteis para ajustar conceitos, aumentar a verticalidade e acelerar as saídas para o ataque.
Estreia e expectativas no Grupo L
A estreia perante o Panamá assume grande relevância. Um triunfo pode ser suficiente para colocar o Gana em boa posição rumo aos 16 avos-de-final. Para Queiroz, a primeira partida terá impacto direto na abordagem aos encontros seguintes, contra seleções europeias teoricamente mais fortes no agrupamento.
O foco passa por maximizar as forças disponíveis e proteger fragilidades defensivas que já se manifestaram nos jogos de preparação. A ausência de elementos-chave forçou uma reorganização do eixo defensivo e uma aposta maior na coesão coletiva.
Trajetória e números
Com quase 45 anos de carreira, Queiroz acumulou experiências em clubes e seleções por diferentes continentes. Passou pelo Sporting, pelos Metrostars nos EUA e pelo Nagoya Grampus no Japão; foi adjunto no Manchester United, treinador principal no Real Madrid e, desde então, dedicou-se sobretudo a seleções — Portugal, EAU, África do Sul, Irão, Colômbia, Egito, Qatar, Omã e agora Gana.
Chegou ao Mundial somando 262 jogos por seleções, com 140 vitórias e uma taxa de sucesso perto dos 53,5%. Ao tornar-se presença no Mundial de 2026, Queiroz igualou Bora Milutinovic como treinador presente em cinco fases finais consecutivas, ficando apenas a uma entrada de Carlos Alberto Parreira, que esteve em seis edições não consecutivas.
Mensagens finais e contexto humano
Queiroz tem sublinhado publicamente o sacrifício dos jogadores e a dificuldade de conviver com pressões externas. Recordou calorosamente o empenho de atletas que, disse, “merecem respeito e admiração”, e reconheceu também os abusos que podem surgir nas redes sociais, onde, em momentos críticos, chegaram a receber ameaças.
Ao assumir o Gana, o treinador deixou claro que quer transformar expectativas em resultados. Resta saber se, com tempo limitado e várias ausências, a sua experiência será determinante para levar a equipa além da fase de grupos.












