Há 76 anos: o Milagre na Relva dos EUA frente à Inglaterra teve o haitiano Joe Gaetjens como herói

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Lesly Gaetjens guarda poucas lembranças do pai, Joe, que desapareceu quando ele tinha sete anos. O nome de Joe ficou ligado a um dos episódios mais surpreendentes da história dos Mundiais — o golo que deu a vitória aos Estados Unidos contra a Inglaterra em 1950 — e a um fim que nunca foi totalmente esclarecido.

Do Haiti a Nova Iorque: estudar, jogar e lavar pratos

Joe Gaetjens nasceu em Port-au-Prince, em 1924, e pertencia a uma família de destaque na sociedade haitiana. Em 1947 rumou aos Estados Unidos com uma bolsa para estudar contabilidade na Universidade de Columbia.

Homem a lavar pratos num café antigo que evoca trabalho noturno em Nova Iorque
Gaetjens conciliou estudos, futebol e um emprego nocturno a lavar pratos em Nova Iorque.

Em Nova Iorque conciliou os estudos com o futebol no Brookhattan Galicia e um emprego nocturno como lavador de pratos no Rudy’s Cafe, no Harlem. No clube recebia cerca de 25 dólares por jogo.

O homem do golo e a equipa dos “amadores”

Apesar de ser haitiano, Gaetjens foi incluído na seleção norte-americana para o Mundial de 1950 porque as regras da época permitiam estrangeiros que manifestassem intenção de obter a cidadania. No dia 29 de junho de 1950, no Estádio Independência, em Belo Horizonte, marcou o único golo do triunfo contra a Inglaterra — um lance que ficou na memória coletiva.

O grupo norte-americano era composto em grande parte por jogadores semiprofissionais. Trabalhavam durante o dia e treinavam futebol fora do horário laboral. Entre as ocupações havia carteiros, operários, costureiros e até um responsável por uma funerária.

  • Carteiros, carpinteiros e retalhistas
  • Operários e um condutor de empilhadora
  • Frank Borghi, guarda-redes, que trabalhava numa funerária familiar

Na selecção havia também diversidade de origens: descendentes de italianos, filhos de açorianos e dois jogadores nascidos fora dos EUA — Joe Maca, na Bélgica, e Ed McIlvenny, na Escócia. Essa mistura cultural foi vista por analistas como reflexo da América e do papel dos imigrantes no desporto.

O jogo de Belo Horizonte

O favoritismo era todo da Inglaterra, que chegava ao Brasil com um historial recente muito superior ao dos norte-americanos. No entanto, num jogo marcado pelo domínio inglês sem concretização, Walter Bahr rematou aos 37 minutos e Gaetjens, com um cabeceamento improvável, desviou a bola para o fundo da baliza de Bert Williams.

Estádio de futebol brasileiro dos anos 1950 com relva e bancos vazios
O Estádio Independência, em Belo Horizonte, palco do golo decisivo em 1950.

As imagens em movimento do lance são raras, porque as câmaras estavam posicionadas atrás da baliza contrária. Ainda assim, testemunhas e colegas asseguraram ao longo dos anos que o gesto de Gaetjens não foi casual: era um movimento que repetia nos treinos e que surpreendia pela eficácia.

A partida teve ainda uma polémica aos 82 minutos, quando Charlie Colombo derrubou Stanley Mortensen na área e escapou à expulsão. O árbitro italiano Generoso Dattilo optou por não mandar o defesa fora do jogo, uma decisão que alimentou discussões depois do apito final.

Da carreira na Europa ao regresso ao Haiti

Depois do Mundial, Gaetjens jogou em França, representando clubes como o Racing de Paris e o Olympique Alès, mas problemas nos joelhos limitaram a carreira. Regressou ao Haiti em 1953, foi recebido como herói e, mais tarde, abriu um negócio de lavandarias, dedicou-se ao cultivo de rosas no jardim e acompanhou a prática do futebol junto dos jovens do bairro.

Em 1954 fez ainda um jogo de qualificação pela seleção do Haiti antes de pendurar as chuteiras. Casou com Lyliane e teve três filhos: Lesly, Richard e Jerry.

Desaparecimento e tentativas de esclarecimento

No final da década de 1950 o Haiti entrou num período de repressão sob o regime de François “Papa Doc” Duvalier. A milícia conhecida como Tontons Macoutes teve papel central na violência política. A 8 de julho de 1964, Joe Gaetjens foi raptado por membros dessa milícia; a família recebeu depois informação de que fora detido em Fort Dimanche, uma prisão ligada a execuções durante o regime.

Perante a ausência de respostas oficiais, a esposa Lyliane e os filhos conseguiram escapar para os Estados Unidos com ajuda de contactos, incluindo o presidente de uma empresa petrolífera no Haiti. Ao longo dos anos foram feitas várias diligências por parte da família e de investigadores: cartas ao Presidente Lyndon B. Johnson, insígnias de interesse por parte de figuras públicas e, nos anos 70, um gesto envolvendo o New York Cosmos e Henry Kissinger para obter informação. Em 1979 a Comissão Inter‑Americana para os Direitos Humanos emitiu um relatório a considerar provável que Joe Gaetjens estivesse morto.

Legado e memória

Para o filho Lesly, que vive na Virgínia, a história do pai é motivo de orgulho e dor. Lesly recorda poucas imagens da infância no Haiti — as rosas do jardim e as idas ao estádio com o pai — e hoje procura manter vivo o legado de Joe sempre que há oportunidades.

O episódio de 1950 volta a ser lembrado a cada Mundial, mas permanece uma história com final incerto. O último sobrevivente da equipa de 1950, Walter Bahr, morreu em 2018, deixando memórias e relatos que ajudaram a preservar a narrativa do chamado “Milagre na Relva”.

Lesly espera que a visibilidade dos Mundiais modernos, em especial o torneio de 2026, ponha novamente a história de Joe Gaetjens em destaque. “Se um jogo como o de 1950 acontecesse hoje, a cara do meu pai estaria em todo o lado”, diz, lembrando que a exposição mediática atual teria mudado muitos desfechos.

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