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Mesmo com o país a atravessar uma crise humanitária marcada pela fome e pelo controlo de gangues, a seleção do Haiti tem oferecido momentos de alívio à população. No Mundial, os jogadores transformaram o relvado numa rara oportunidade para os haitianos respirarem esperança, ainda que temporária.
Futebol como escape em tempo de crise
O secretário-geral da ONU, António Guterres, descreveu o Haiti como um estado em colapso, onde gangues armados dominam áreas inteiras e milhões enfrentam insegurança alimentar grave. Nesse contexto, os resultados em campo acabam por ter um impacto que vai além do desporto: representam uma pausa emocional para uma população cansada.
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Para muitos jogadores, essa responsabilidade é pessoal. Através da visibilidade do Mundial, procuram oferecer algo positivo a compatriotas que, de outra forma, só vêem notícias sobre violência e privação.
Frantzdy Pierrot: da infância difícil à liderança dentro e fora do relvado
Frantzdy Pierrot, avançado de 31 anos, recorda um passado de carências no Haiti. Em entrevista ao El País, contou que jogava na rua sem condições e que, por vezes, os pais chegavam a abdicar da própria alimentação para garantir que os filhos comiam.
O percurso de Pierrot passou por clubes na Bélgica (Mouscron), na França (Guingamp), em Israel (Maccabi Haifa, onde disputou a Liga dos Campeões) e na Grécia (AEK Atenas), com um empréstimo posterior para o Rizespor, na Turquia. A experiência internacional não o desligou das origens: criou uma fundação para abrir portas a crianças haitianas com talento e poucas oportunidades.
Sobre o impacto da presença do Haiti no torneio, Pierrot foi direto: “Com tudo o que está a acontecer e com tudo o que passamos, estamos a dar-lhes algo de que possam falar com orgulho”.
Wilguens Paugain: adotado, longe da família e sem regressos
O defesa Wilguens Paugain, 25 anos, também conhece bem as dificuldades do país, embora a sua trajetória pessoal tenha sido distinta. Adotado por uma família francesa aos cinco anos, levou consigo o irmão mais novo. “Tivemos sorte porque não nos separaram”, disse ao El Mundo.
Originalmente praticante de ténis para canalizar energia, Paugain acabou por optar pelo futebol na adolescência e atualmente representa o Zulte Waregem. A atual vaga de violência e o encerramento de acessos dificultaram o regresso de muitos jogadores ao Haiti. Nas palavras de Paugain: “O país não é seguro. (…) Enfrentamos seleções com estádios cheios quando jogam em casa e nós não temos essa possibilidade”.
Competição, orgulho e memória histórica
Depois da derrota por 1-0 frente à Escócia, Pierrot sublinhou a ambição da equipa antes do confronto com o Brasil: “Eles podem ser melhores, mas vão-nos respeitar, porque damos tudo e não temos medo de ninguém”.
O significado dessa presença vai além do resultado imediato. Pierrot evocou um episódio que ficou na memória coletiva haitiana: em agosto de 2004, figuras do futebol brasileiro participaram num “Jogo da Paz” no país, um gesto que, segundo o avançado, ligou o povo haitiano ao Brasil de forma afetiva. A seleção atual tenta agora oferecer novos motivos de orgulho para quem acompanha a equipa à distância.
O que está em jogo para o Haiti
Em termos desportivos, cada partida é uma oportunidade de mostrar talento e competitividade. Fora dele, cada momento de visibilidade internacional cria uma janela para narrativas positivas sobre o país.
Num cenário marcado por fragilidade política e social, a seleção funciona como um símbolo — frágil, mas relevante — de coesão e esperança. Para jogadores como Pierrot e Paugain, o Mundial é uma plataforma para dar voz ao Haiti e, ao mesmo tempo, para tentar mudar perceções que normalmente se limitam às crises.











