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Noémia de Sousa, cuja passagem pelo centenário é lembrada este ano, permanece como uma figura central da literatura moçambicana. A sua poesia e atuação jornalística ajudaram a transformar a escrita numa ferramenta de contestação ao colonialismo.
Uma voz forjada em resistência
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Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares nasceu em 20 de setembro de 1926, em Catembe, e ficou conhecida por Noémia de Sousa. Recebeu o apelido de “mãe dos poetas moçambicanos” por ter sido a primeira mulher negra a publicar poesia em Moçambique e por inspirar uma geração de autores.
Moradora da Mafalala na década de 1940, escreveu poemas que se tornaram emblemas do nacionalismo africano, entre eles “Deixa passar o meu povo”. A exaltação dos valores africanos e a denúncia do racismo colonial marcaram a sua obra e atraíram a atenção da polícia política.
Infância, formação e primeiras publicações
Filha mais nova de seis irmãos, Noémia teve uma infância marcada por várias influências familiares — moçambicana, portuguesa, goesa e alemã — e pelo incentivo do pai, que lhe ensinou a ler aos quatro anos.

Com a morte do pai, aos oito anos, deixou de seguir o percurso académico tradicional e entrou num curso pós-laboral de comércio na Escola Técnica. Foi nessa escola que publicou os seus primeiros poemas.
Em 1948, com 22 anos, estreou-se na imprensa com o poema “Canção fraterna”, publicado no jornal da Mocidade Portuguesa. Para contornar a repressão usou inicialmente a assinatura N. S. e depois o pseudónimo Vera Micaia.
Ativismo cultural e vigilância política
Ao lado de José Craveirinha, Noémia ajudou a difundir em Moçambique as ideias da Negritude, influenciadas pelo neorrealismo português. Essa ligação entre literatura e luta anticolonial tornou-a alvo da PIDE.
Em 1949 deixou o bairro da Mafalala por razões políticas, depois de um texto no jornal Brado Africano que denunciava a situação de Eduardo Mondlane na África do Sul. A intensificação da perseguição levou-a a partir para Portugal em 1951.
Carreira no exílio e no jornalismo
Em Lisboa viveu até 1964 e trabalhou como tradutora na Agência Noticiosa de Informação (ANI). Em 1962 casou-se com o poeta Gualter Soares e teve uma filha.
Com a repressão em Portugal a aumentar, mudou-se clandestinamente para França por volta de 1964, onde trabalhou no Consulado de Marrocos e continuou a escrever e a trabalhar como jornalista, sempre com a filha.
De regresso a Portugal, integrou a Reuters em 1972. Entre 1982 e 2001 colaborou na agência Lusa e na sua antecessora, a Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP). Após a reforma, recebeu autorização especial para continuar a trabalhar na Lusa.
Obra, edição e legado
A sua produção poética concentrou-se sobretudo entre 1948 e 1951, espalhada por jornais e revistas. Apesar do período breve de maior atividade literária, a influência de Noémia foi duradoura.

Em 2001, um ano antes da sua morte, a Associação dos Escritores Moçambicanos reuniu os seus poemas no volume Sangue Negro. Dez anos depois a editora Marimbique lançou uma edição ampliada, que incluiu dois poemas posteriores: “19 de Outubro” (1986), em homenagem a Samora Machel, e um texto de 1991 dedicado às irmãs falecidas.
Ao longo da vida colaborou com várias publicações em diferentes países, entre as quais se destacam:
- O Brado Africano, Moçambique 58 e Itinerário (Moçambique);
- Mensagem e Notícias do Bloqueio (Angola);
- Mensagem da Casa dos Estudantes do Império (Portugal) e a revista Sul (Brasil).
Últimos anos
Noémia de Sousa morreu a 4 de dezembro de 2002, em Cascais. A reedição da sua obra e as memórias sobre a sua vida mantêm vivo o legado de uma poeta que transformou versos em instrumento de combate ao colonialismo.












