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Seis mil e setecentos quilómetros separaram Atlanta da Cova da Moura, mas nesta segunda-feira a língua e as cores de um arquipélago encurtaram a distância. Cabo Verde jogou pela primeira vez num Campeonato do Mundo e o resultado em campo tornou-se festa nas ruas de um bairro da Amadora.
Uma estreia histórica que foi festa
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No cenário do Grupo H, a equipa comandada por Bubista estreou-se no Mundial 2026 frente à campeã europeia Espanha. A deslocação aos Estados Unidos incluiu uma chegada animada — até com uma receção de funcionários cabo-verdianos no Aeroporto Internacional de Boston — e trouxe consigo a esperança de viver minutos numa grande montra mundial.
Em Portugal, na Cova da Moura, a celebração tomou conta das ruas. Moradores montaram um ecrã na rua principal, ligaram uma coluna potente e encheram o largo com cadeiras de esplanada, campismo e de café. Bandeiras, camisolas da seleção e acessórios nas cores do país eram visíveis em quase todas as janelas.
Como se viveu o jogo
O som chegou com atraso e o hino foi cantado a capella, mas ninguém se deixou abater. Nas imediações, uma garagem transformou-se num pequeno bar: vendia-se cerveja, grogue, refrigerantes e comida assada; o cheiro a milho e frango percorreu o bairro durante os 90 minutos.

O jogo decorreu sem golos no primeiro tempo e, no segundo, cada defesa de Vozinha foi recebida como um momento decisivo. O guarda-redes de 40 anos, titular no Desp. Chaves, acabou eleito o melhor em campo e foi ovacionado pelas centenas de pessoas reunidas no largo.
Vozinha, lágrimas e reconhecimento
No final, o veterano guardião não conteve a emoção. “Chorei depois do jogo porque cresci com os meus avós e eles não puderam estar aqui, morreram há uns anos. A minha mãe também não estava cá, não conseguiu ter o visto a tempo”, disse Vozinha na zona de entrevistas rápidas. Acrescentou que sempre sonhou com aquele palco e que trabalhou para ali chegar.
Depois da exibição em Atlanta, a repercussão foi imediata: saudações de colegas como Unai Simón e um aumento expressivo do número de seguidores nas redes sociais — de cerca de 50 mil para 2,5 milhões, segundo a reportagem.
Um empate que foi festejado
O apito final trouxe uma explosão de alegria. O empate sem golos contra a seleção espanhola foi recebido como uma vitória por muita gente na Cova da Moura: música, cânticos pelo guarda-redes e o refrão de esperança espalharam-se pelo bairro.

Edson, natural de Santo Antão e residente no bairro há poucos meses, resumiu o sentimento local: mesmo frente a um dos favoritos do torneio, a rivalidade esportiva cedeu lugar ao orgulho. Para muitos, o empate confirmou que o apuramento alcançado em outubro passado, na Praia, foi apenas o primeiro passo de uma história que agora se escreve no Mundial.
Contexto difícil no mesmo dia
O dia trouxe também uma nota pesada: em Sintra terminou o julgamento pela morte de Odair Moniz, cidadão cabo-verdiano que em outubro de 2024 foi baleado na Cova da Moura por um agente da PSP. Menos de uma hora depois de o agente ter sido condenado a três anos e seis meses de pena suspensa, o jogo começou em Atlanta. No bairro, porém, a conversa ficou concentrada nas figuras do campo — Pico, Jovane, Livramento e principalmente Vozinha.
O que vem a seguir
Com o empate contra Espanha, Cabo Verde soma um ponto no Grupo H e já virou a atenção para a próxima ronda: o encontro com o Uruguai, agendado para o próximo domingo. A ambição permanece a mesma — aproveitar a estreia histórica e continuar a competir de forma séria no Mundial.











