A sombra da PIDE sobre Noémia de Sousa, poeta nas literaturas de Moçambique e Portugal

Mostrar resumo Ocultar resumo


Arquivos da polícia política portuguesa mostram que a poeta moçambicana Noémia de Sousa foi alvo de vigilância persistente, com registo de deslocações, interceptação de cartas e acompanhamento dos seus contactos. O dossier detalha intervenções da PIDE tanto em Moçambique como em Lisboa e ganha relevo no ano em que, a 20 de setembro, se assinala o centenário do seu nascimento.

Vigilância iniciada em Moçambique

Documentos da Polícia Internacional e de Defesa do Estado/Direção-Geral de Segurança (PIDE/DGS) conservados nos arquivos revelam que Carolina Noémia Abranches de Sousa, conhecida como Noémia de Sousa, foi vigiada desde pelo menos os 25 anos.

Ficheiros e documentos de arquivo em caixas, representando registos policiais históricos
Arquivos policiais revelam a extensão da vigilância sobre a poeta desde os anos 1940.

Em 1949 esteve presa em Moçambique, acusada de integrar o Movimento de Unidade Democrática (MUD) Juvenil e de imprimir panfletos políticos. Dois anos depois, para escapar à perseguição, partiu para Lisboa.

Chegada a Portugal e primeira triagem

Registos policiais apontam que, a 19 de outubro de 1951, um comandante do Corpo da Polícia Civil de Moçambique alertou o diretor nacional da PIDE em Lisboa sobre a chegada de Noémia a bordo do paquete Angola, rotulada como “elemento ativo de propaganda comunista”.

A PIDE ordenou revista pessoal e inspeção da bagagem. Quando nada de incriminador foi encontrado, instruíram que a passageira se apresentasse à polícia para prestar declarações, apesar de ela ter dito vir apenas visitar a família.

Controlo da correspondência e contactos

A polícia manteve atenção estreita aos movimentos de Noémia em Lisboa e às suas comunicações. Em maio de 1952, as autoridades moçambicanas retransmitiram ao serviço central uma carta que a poeta enviou a José Craveirinha, na qual ela escrevia: “Aqui em Lisboa renovei conhecimentos, alguns muito bons”.

Cartas e envelopes antigos, simbolizando correspondência interceptada pela polícia
A PIDE apreendeu e analisou sistematicamente a correspondência de Noémia.

Esse trecho suscitou preocupações: a polícia considerou que os novos contactos poderiam estar ligados a “elementos avançados” e recomendou acompanhamento para extrair eventuais implicações de interesse policial.

Também foram apreendidas revistas destinadas a Noémia e cartas dirigidas a si, incluindo uma mensagem assinada por Viriato da Cruz e remetida através da escritora Alda Espírito Santo.

Rotina de suspeição e redes de intervenção

Relatórios de novembro de 1953 descrevem uma vigilância discreta em torno da poeta: referências a idas às matinés do Tivoli, visitas da irmã e encontros repetidos com Maria Lamas foram anotadas nessa fase.

A PIDE classificou Noémia como figura ligada aos jovens democratas moçambicanos, responsável por reproduzir panfletos do movimento e por desempenhar papel activo na divulgação política.

Os ficheiros mostram ainda que a polícia tinha conhecimento da ampla circulação de alguns dos seus poemas em jornais e revistas de Moçambique, Angola e Brasil. A sua presença no Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1953), organizado por Francisco Tenreiro e Mário Pinto de Andrade, também foi registada.

Acusações sobre a Casa dos Estudantes do Império e novos interrogatórios

Em 1960, comunicações entre a polícia moçambicana e o diretor da PIDE mencionaram um relatório segundo o qual o angolano João Brás Dias Van Dunem terá indicado que Noémia estava ligada a uma “clique” comunista ativa na Casa dos Estudantes do Império (CEI).

Perante isso, a PIDE determinou continuar a acompanhar as suas atividades e voltou a interrogá‑la em maio desse ano, questionando-a especificamente sobre relações com a CEI. Noémia declarou que apenas assistira a conferências ou recitais naquele espaço.

Exílio e regresso

Pressionada pela ditadura e pela vigilância policial, Noémia deixou Portugal clandestinamente em 1964 e fixou‑se em França. Regressou ao país em 1973.

Memória e marca política

O dossier da PIDE sobre Noémia de Sousa traça um retrato de intimidação institucional contra uma das vozes poéticas mais influentes da literatura moçambicana. A documentação confirma a extensão do controlo policial sobre criadores cujo trabalho e contactos eram considerados politicamente incómodos.

No contexto da comemoração do centenário do seu nascimento, os documentos ajudam a compreender melhor o ambiente de repressão que moldou parte da sua trajectória e a importância do seu legado literário e cívico.

Dê o seu feedback

Seja o primeiro a avaliar este post
ou deixe uma avaliação detalhada



Semanário Transmontano é um meio independente. Apoie-nos adicionando-nos aos seus favoritos do Google News:

Publicar um comentário

Publicar um comentário