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O colagénio saiu das embalagens de cremes e suplementos e tem aparecido em cafés, iogurtes, bolachas e barras energéticas. A promessa é de pele mais firme, mas especialistas dizem que as provas científicas não acompanham o entusiasmo comercial.
Uma proteína essencial, mas sem garantias estéticas
Trata‑se da proteína mais abundante do corpo humano, responsável pela resistência de ossos, tendões, cartilagens e, claro, da pele. Ainda assim, a sua presença em produtos industrializados não garante automaticamente uma melhoria visível no aspeto cutâneo.
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A nutricionista Bárbara Oliveira alerta para a forma como o ingrediente é apresentado ao público: “Esta história do colagénio nos alimentos vem como algo camuflado, do género ‘um ingrediente para a tua pele’, e as pessoas nem sabem como é que este processo funciona”.
Segundo Oliveira, “não existe evidência suficientemente robusta para poder dizer que tomar colagénio vai ter impacto no envelhecimento da pele, o que efetivamente está estudado é que os hábitos têm impacto. Não acho que faça sentido a adição de colagénio”.
O que diz a ciência sobre suplementos e alimentos com colagénio
Marta Ferreira, doutorada em Ciências Farmacêuticas, aponta para a fragilidade dos estudos que sustentam as alegações estéticas. “No que diz respeito ao cuidado da pele, é duvidoso que o aumento do consumo de colagénio reduza ou previna o desenvolvimento de sinais do envelhecimento”, afirma.
Ela acrescenta que muitos dos trabalhos publicados são de qualidade limitada: “Os estudos que analisam esta hipótese são, na sua maioria, de muito baixa qualidade e, mesmo aqueles que mostram resultados positivos, tendem a falhar na demonstração dos benefícios que as pessoas procuram nestes suplementos, como a redução de rugas e flacidez”.
Colagénio hidrolisado: vantagem real ou argumento de venda?
Produtos rotulados com colagénio hidrolisado alegam maior eficácia porque já estariam na forma que as células utilizam. Marta Ferreira explica que essa vantagem é, na prática, discutível.
“As marcas de suplementos e de alimentos destacam este colagénio hidrolisado como sendo mais vantajoso por já estar na forma em que é utilizado pelas células do organismo. Mas o ser humano tem competência para hidrolisar o colagénio durante a digestão e, além disso, o facto de já vir hidrolisado não significa que chegue mais facilmente, ou de forma privilegiada, às células da pele”, diz a investigadora.
Em tom crítico, ela resume que a ideia de “skincare para comer à colher” — expressão usada por marcas no lançamento de gelatinas lácteas com colagénio e vitamina C — “descreve um atalho metabólico que não existe”.
Fontes naturais e necessidades reais
Há alimento com colagénio na dieta tradicional: peles, caldos de ossos e gelatina são exemplos. Mas a quantidade que aparece nos produtos comercializados para “beleza” costuma ser baixa face às doses testadas em alguns estudos — e esses estudos não trazem conclusões firmes.

As especialistas lembram que é possível obter os aminoácidos necessários ao colagénio a partir de fontes comuns. “Podemos ir buscar aminoácidos à proteína”, diz Bárbara Oliveira, apontando carne, ovos e lacticínios. Para quem não consome origem animal, Marta Ferreira indica alternativas vegetais, como soja e leguminosas.
Ela sublinha: havendo ingestão protéica adequada pela dieta, “não existe evidência de que o aumento do consumo de colagénio, para além das necessidades individuais, tenha benefícios para a pele”.
Rótulos, regulamentação e riscos de distração
Nem todas as alegações que aparecem nas embalagens referem o que realmente contribui para a síntese do colagénio. A Comissão Europeia permite, por exemplo, a declaração de que a vitamina C contribui para a formação normal de colagénio para o funcionamento normal da pele, mas não autoriza afirmar o mesmo em relação ao colagénio ingerido como ingrediente isolado — conforme o Regulamento (UE) n.º 432/2012.
Outro ponto de atenção é o potencial de estes produtos desviarem as pessoas de cuidados mais eficazes. A nutricionista lembra que os hábitos básicos têm impacto comprovado: alimentação equilibrada, hidratação, exercício e proteção solar continuam a ser determinantes.
Consumo com critério
Os alimentos enriquecidos com colagénio nem sempre fazem mal e podem integrar um lanche equilibrado. Ainda assim, Marta Ferreira adverte: “um iogurte com colagénio não faz mal e pode ser incluído num lanche saudável”, mas salienta que “não deve ser encarado como um alimento com benefícios especiais para a pele”.
Em resumo: a presença de colagénio em cafés, iogurtes ou barras é mais uma tendência de marketing do que uma garantia de efeito cosmético. Priorizar hábitos saudáveis e uma dieta variada continua a ser a recomendação mais segura para quem procura manter a pele em boas condições.











