Privilégios de uns e obstáculos para outros no teatro

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A Companhia de Teatro de Almada estreia no palco do Teatro Municipal Joaquim Benite uma nova montagem de Medida por Medida, de William Shakespeare, dirigida pelo espanhol Ignacio García. A peça permanece em cena até 29 de novembro e, segundo o encenador, mantém-se atual porque reflete hábitos persistentes da natureza humana.

Uma obra que dialoga com crises contemporâneas

García classifica o texto como um dos mais «complexos e sombrios» de Shakespeare e defende que é particularmente apropriado para ser apresentado em momentos de tensão social. Para o encenador, a peça expõe desigualdades profundas e padrões de poder que atravessam épocas.

Ator a ler um texto durante ensaio que evoca crises contemporâneas
Ensaio que aproxima o drama de questões sociais atuais.

Segundo ele, temas como corrupção, desigualdade social e sexual e a ânsia por influência política fazem do enredo algo mais do que um drama histórico: são reflexos de problemas atuais. A montagem procura, por isso, estabelecer pontes entre o palco e a realidade das ruas.

O retrato de uma justiça com dois critérios

Medida por Medida põe em cena um sistema judicial onde «aos ricos tudo é permitido; os pobres mal se podem mexer», resume o encenador ao caracterizar a dramaturgia como uma denúncia do tratamento desigual perante a lei. Essa ideia de dois pesos e duas medidas orienta a leitura e a encenação.

Balança da justiça e martelo simbolizando justiça desigual
A peça denuncia critérios duplos na aplicação da lei.

Um elenco orientado para a comunidade

Durante os ensaios, o grupo revelou uma forte capacidade de relacionar a ação com o presente. García valorizou a atitude do elenco como porta-voz da sociedade.

  • André Pardal
  • Ana Cris
  • Duarte Grilo
  • Duarte Guimarães
  • João Cabral
  • João Didelet
  • José Redondo
  • Maria João Falcão
  • Marina Albuquerque
  • Pedro Walter

O diretor afirma que estes atores se mostraram «sensíveis ao seu tempo» e capazes de traduzir para o palco tensões presentes na sociedade. O público, acrescenta, tem percebido e reagido a esse paralelo.

Uma chamada à responsabilidade cívica

García aponta uma lição que considera central no texto de Shakespeare: para que a democracia funcione, os eleitores têm de exigir aos governantes o cumprimento das promessas. Nas suas palavras, «no sul, infelizmente, somos demasiado obedientes…», uma observação que pretende incentivar a reflexão sobre participação e cobrança política.

A montagem em Almada propõe assim uma leitura de Shakespeare como espelho do presente — um convite a ver no clássico não só entretenimento, mas também um estímulo ao debate público sobre justiça e poder.

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