Chuva não trava a vindima em Melgaço: petiscos, vinho e convívio

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No coração de Melgaço, a vindima do Alvarinho mistura trabalho, tradição e convívio — mesmo quando a chuva complica a tarefa. Na região onde a marca Soalheiro organiza a colheita em centenas de pequenas parcelas, a atividade é simultaneamente fonte de rendimento e de identidade local.

Chuva não impede, mas dificulta

O dia começou com chuva forte numa vindima que a própria equipa descreve como a mais precoce de sempre: arrancou a 11 de agosto. Maria João Cerdeira, coproprietária da Quinta de Soalheiro, lembra que “vindimar com chuva é o pior”, mas sublinha que, mesmo assim, a colheita continua: “com chuva a vindima também se faz”.

Além do desconforto, a água atrapalha na prática: escorre pelos braços levantados para cortar os cachos e molha quem trabalha no tronco das vinhas. Ainda assim, a rotina segue, com capas improvisadas e fatos de borracha quando necessário.

Um mosaico de minifúndios

O abastecimento do Soalheiro depende de cerca de 200 viticultores distribuídos por aproximadamente 700 parcelas — um verdadeiro mapa de pequenos terrenos que soma perto de 100 hectares. O esquema mantém famílias no interior e preserva práticas locais.

Para muitos produtores, cultivar uvas em jardins ou pequenos terrenos compensa: o quilo do Alvarinho chega a ser pago a 1,30 euros, segundo quem trabalha com a marca. O Soalheiro fornece suporte técnico e partilha alguma maquinaria para uniformizar a produção.

Produção e mercado

Mais de meio século depois do primeiro plantio contínuo de Alvarinho feito pelo pai de Maria João, a produtividade chega a cerca de 10 000 quilos por hectare. A operação comercial da marca é substancial: 40% da produção é exportada para 55 países e a empresa declara uma faturação anual de 7,5 milhões de euros.

Pausa à mesa: comida, convívio e tradição

Na vindima de Melgaço, a pausa para o lanche é quase ritual. Elsa Alves, que passa as manhãs a cozinhar em casa, só aparece no campo por volta das 11:00 com queijos, rissóis, folhados e bifanas — tudo caseiro — para partilhar com quem está a trabalhar.

Refeição coletiva com queijos, rissóis e vinho partilhados entre vindimadores em pausa de trabalho
A pausa para o lanche é quase ritual na vindima de Melgaço

Maria João explica que, por se tratar de minifúndio, muitos vindimadores são familiares e amigos. A refeição coletiva é, assim, forma de agradecimento e de manter tradições: presunto, bolinhos de bacalhau e o vinho da colheita anterior costumam acompanhar o convívio.

Quem são os vindimadores

Manuel Alves, 78 anos e professor reformado, cultiva um jardim de “quatro a cinco mil metros” no centro da vila e é um dos produtores que fornece uvas ao Soalheiro. Diz que, sem a vinha, os terrenos acabariam por se transformar em silvas.

Patrícia Ferreira, 38 anos, começa o trabalho às 07:00 e só pára por volta das 15:00. Vem à vindima porque precisa do rendimento para criar os dois filhos; começou a trabalhar nas colheitas aos 12 ou 13 anos. “Que remédio”, resume, justificando a jornada longa.

Vindimar entre esforço e bem-estar

Para alguns, a vindima é penosa; para outros, um alívio. Patricia descreve o processo prático: tesourinha numa mão, cacho na outra, colocar na giga e depois o trator recolhe. Alice Afonso, 60 anos, admite que o trabalho cansa os braços e a cervical, mas conta que a atividade reduz o stress e favorece o convívio. “A gente conhece pessoas, faz amizades”, diz.

No final do dia, as uvas seguem no camião do sr. Nuno até à adega, e a colheita — mesmo sob chuva — mantém viva uma economia local que combina tradição, sustento e ligação à terra.

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