Dois sismos mortais na Venezuela somam novo revés a uma economia já fragilizada

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Dois violentos sismos atingiram a Venezuela num momento em que o país tentava recuperar-se de uma crise económica profunda e de uma transição política delicada. A catástrofe testa não só a capacidade local de resposta, mas também a disposição dos Estados Unidos em transformar promessas em ajuda concreta.

Choque sobre uma economia já fragilizada

A Venezuela chega ao desastre com a economia em ruínas. Décadas de má gestão do petróleo, corrupção e uma série de sanções lideradas pelos EUA deixaram o produto interno bruto dramaticamente reduzido desde 2013.

Em janeiro, a detenção do ex‑presidente Nicolás Maduro por forças norte‑americanas marcou um ponto de viragem político. A líder interina, Delcy Rodríguez, tem procurado abrir a economia com cautela para atrair investimento estrangeiro no setor petrolífero e tentar aliviar as sanções.

Apesar de algumas flexibilizações por parte de Washington e de uma recuperação gradual da produção de petróleo, a inflação continua elevada e a maioria da população vive com salários insuficientes. Em 2025, quase 8 milhões de venezuelanos — cerca de um terço da população — dependiam de assistência humanitária, segundo a ONU.

Infraestrutura e necessidades imediatas

O terremoto agravou carências preexistentes. O acesso a itens essenciais — combustível, medicamentos e água — já era irregular antes dos tremores. A emergência vai pressionar ainda mais uma cadeia de abastecimento com rotas e estoques debilitados.

O sistema de saúde e a infraestrutura pública, fragilizados por anos de subinvestimento, correm risco de colapso. Rodríguez declarou oficialmente o estado de emergência e anunciou a mobilização da rede pública e privada de saúde: “Ativámos toda a rede pública e privada de saúde do país — particularmente nas áreas mais afetadas — para tratar os feridos durante este momento de grande sensibilidade para a população”, disse ela, acrescentando que foi montada uma equipa de alto nível para coordenar buscas e salvamentos.

Até ao momento, as autoridades confirmaram pelo menos 32 mortos e cerca de 700 feridos, números que podem subir conforme avance o socorro nas zonas mais afetadas.

Estimativas de prejuízos e riscos secundários

Modelagens iniciais do Serviço Geológico dos EUA (USGS) apontam para potenciais perdas económicas entre 10 mil milhões e 100 mil milhões de dólares — o teto dessa estimativa equivalendo aproximadamente ao tamanho da economia venezuelana atual.

A sismóloga Lucy Jones, do Caltech, destacou outro perigo: além do colapso de edifícios, rupturas em tubagens de gás e danos em instalações elétricas podem provocar incêndios. Esses sinistros secundários, em algumas ocasiões, já dobraram o custo económico causado por grandes sismos.

Reações políticas dentro e fora do país

Maduro, deposto e sob custódia nos EUA, divulgou uma mensagem de solidariedade no seu canal oficial no Telegram. “Hoje, há apenas uma mensagem: máxima unidade, máxima solidariedade e máxima ação”, lê‑se na publicação assinada por ele e pela esposa, Cilia Flores de Maduro, actualmente detidos em Nova Iorque e a responder a acusações federais.

Do lado da oposição, María Corina Machado, que vive no exílio e foi distinguida com um prémio internacional no ano passado, manifestou apoio às famílias afetadas através da rede X: “O meu coração, o meu abraço infinito e as minhas orações estão com cada lar venezuelano nestas horas de angústia”.

Os Estados Unidos sob escrutínio

As réplicas deixaram também uma questão política sensível: até que ponto os EUA vão empenhar-se na assistência a um país com laços recentes e complexos com Washington? O próprio presidente norte‑americano fez declarações polêmicas sobre a Venezuela no passado e tem elogiado a sua relação com Rodríguez.

Num comício, um dia antes dos tremores, Trump afirmou que a Venezuela estava “muito bem” e celebrou o que descreveu como ganhos económicos ao extrair milhões de barris de petróleo. Após os sismos, publicou que os EUA estão “prontos, dispostos e aptos a ajudar” e disse ter instruído agências governamentais a prepararem resposta rápida.

O secretário de Estado Marco Rubio acrescentou que os EUA enviariam de imediato equipas de busca e resgate, recursos médicos e assistência humanitária. Ainda assim, muitos venezuelanos aguardam para ver se essas promessas se traduzirão em ajuda operacional e em apoio sustentado.

O que está em jogo

Para além das perdas humanas e materiais, o desastre põe em risco a frágil janela de recuperação económica e política aberta na Venezuela. A magnitude dos danos e a capacidade limitada do Estado para financiar reconstrução tornam a cooperação internacional crucial.

Seja qual for o nível de apoio estrangeiro, o impacto direto sobre as famílias e a infraestrutura pública será imediato e duradouro. A rapidez e a coordenação da resposta determinarão não apenas o número de vidas salvas, mas também a viabilidade de retomar qualquer trajectória de normalização económica.

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