Salman Rushdie diz à CNN Portugal que se deve tratar a morte com humor na escrita

Mostrar resumo Ocultar resumo

Salman Rushdie vem a Portugal para apresentar o seu mais recente livro, O Último Instante — Um Quinteto de Histórias, e participar no festival literário BABELL. Autor reconhecido desde 1981 por Os Filhos da Meia-Noite e alvo de uma fatwa em 1989, Rushdie sobreviveu a um ataque em 2022 e continua ativo como escritor.

Regresso formal à ficção

Depois de décadas em que alternou entre romances e memórias, Rushdie descreve o novo volume como um retorno à narrativa ficcional. Embora tenha publicado ensaios e livros de memórias — entre eles Joseph Anton e Knife —, o autor afirma que se percebe sobretudo como contador de histórias.

O conjunto reúne cinco contos que foram sendo escritos ao longo de vários anos. As três histórias centrais surgiram num período imediato após Knife, enquanto a primeira e a última foram compostas anteriormente. A peça central, uma história de fantasmas intitulada “Late” (ou “Atrasado”), nasceu dessa vontade de regressar à ficção.

Mortes, idade e um tom lúdico

O fio temático que une as histórias é a presença da morte em formas variadas. Rushdie admite que a idade — com quase 79 anos — e a experiência de ter chegado perto do fim influenciaram essas narrativas. Ainda assim, sublinha que não quis escrever um livro sombrio.

O escritor optou por um tom mais travesso e, por vezes, humorístico. Para ele, tratar a mortalidade com ligeireza pode ser uma forma eficaz de abordar o tema — transformar o fim num motivo de reflexão, sem cair no pessimismo absoluto.

Resiliência pessoal e fontes de força

Rushdie reconhece que as sequelas físicas do ataque de 2022 tornam o ato de escrever mais exigente — perdeu um olho e teve danos na mão esquerda —, mas afirma que consegue continuar. A dificuldade, diz, é prática; a vontade de seguir trabalhando permanece.

Ele atribui parte da sua recuperação à presença da mulher, Eliza, cuja companhia considera uma grande ajuda. Ambos estão entusiasmados com a viagem a Portugal — Eliza, inclusive, nunca visitou o país, e Rushdie recorda com prazer uma visita anterior ao Porto.

Liberdade de expressão em tempos difíceis

O autor voltou a defender a liberdade de expressão como causa permanente. Rushdie alerta que hoje existem pressões variadas contra quem fala livremente: em alguns lugares — como nos Estados Unidos — o risco vem de cenários políticos; noutros, de motivações religiosas.

Ele afirma não hierarquizar as ameaças: tanto ataques políticos quanto religiosos podem ser perigosos. E nota que, ao longo das décadas, cresce a consciência entre escritores e artistas sobre a importância de permanecerem unidos na defesa dessa liberdade.

Projetos em curso e continuidade

Rushdie garante que não tem intenção de parar. Está sempre a escrever e atualmente trabalha num romance ainda em desenvolvimento. Não revelou detalhes sobre o tema, preferindo guardar o projeto para quando estiver mais avançado.

Rotina, dificuldades e gratidão

Apesar dos obstáculos físicos, a escrita continua a ocupar a maior parte do seu tempo e a ser fonte de satisfação. Quando questionado sobre práticas como um diário de gratidão, Rushdie explica não ter um, mas enumera o que lhe traz apreço: estar vivo, manter a escrita, e contar com família, amigos e amor.

Para o autor, esses fatores ajudaram-no a recuperar e a seguir produzindo. E lembra com naturalidade o prazer de dias simples — como um dia agradável — entre as pequenas razões para sentir-se grato.

Dê o seu feedback

Seja o primeiro a avaliar este post
ou deixe uma avaliação detalhada



Semanário Transmontano é um meio independente. Apoie-nos adicionando-nos aos seus favoritos do Google News:

Publicar um comentário

Publicar um comentário