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Salman Rushdie apareceu sozinho no edifício da CNN, em Nova Iorque, para a entrevista. Quatro anos depois de ter sido esfaqueado quase até à morte, o escritor voltou a escolher as suas próprias condições para regressar à vida pública e apresentar um novo livro.
Um encontro sem pompa
Sem assistentes ou guarda-costas, Rushdie mostrou-se reservado à chegada, fisicamente mais frágil, mas ainda com uma presença intelectual marcante. Pediu logo para falar do livro e não dos episódios violentos do passado: “Não quero falar do que me aconteceu, nem do passado. Quero falar do meu livro.”
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O livro, apresentado como O Último Instante, reúne cinco contos que giram em torno da morte e da aproximação do fim. Três dessas histórias foram influenciadas pelos acontecimentos de 2022, quando o autor sofreu o ataque que quase lhe tirou a vida.
Do fatwa à clandestinidade
A carreira de Rushdie foi marcada por controvérsia desde a publicação de Versículos Satânicos, obra que provocou a ira de milhões de muçulmanos e levou ao fatwa emitido pelo aiatola Ruhollah Khomeini, que ofereceu uma recompensa pela sua morte. A partir de 1989 passou a viver discretamente, sob proteção policial, e a evitar eventos públicos.
Nesse período de sombras, Rushdie narrou a sua experiência em Joseph Anton, livro em que descreve anos de isolamento e mudanças frequentes de residência. Uma década depois da fatwa, o autor aceitou receber um pequeno grupo de jornalistas no Bard College, em Annandale-on-Hudson, para uma entrevista, uma palestra e um jantar com o reitor — um encontro onde parecia aproveitar, com evidente prazer, o convívio reaparecido.
Na obra seguinte, Faca, Rushdie conta a sensação de ver chegar o agressor: “So it’s you. Here you are”, frase que documenta o momento em que o atacante subiu ao palco, pouco antes da tentativa de homicídio no verão de 2022. O escritor chegou a dizer que não temia tanto um assassinato ordenado por um Estado como o de um indivíduo fanático.
Um tom inesperado sobre o fim
Embora trate da morte, o novo livro evita a narrativa sombria e, segundo Rushdie, procura um tom mais leve. O autor explicou que quis dar “um toque divertido” às histórias para que não se transformassem numa profusão de pessimismo: “Não queria dizer ‘meu Deus, vamos todos morrer’, porque todos sabemos isso.”
Ele afirmou ter se interessado por como as pessoas encaram o fim — seja com serenidade, raiva ou frustração — e que as personagens dos contos discutem justamente essas reações.
Persistência criativa
Apesar das sequelas do ataque, Rushdie não interrompeu o trabalho. Nos últimos quatro anos publicou dois livros e já começou outro. Conta que escreve feliz: é quando mais se realiza e não imagina o que faria se deixasse de escrever.
Para o leitor, a soma das memórias e da ficção de Rushdie — dos anos de clandestinidade a esta recente coleção de contos — transmite a sensação de um ciclo que se fecha. O autor retorna às páginas, determinado a definir o seu próprio final de capítulo.











