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SECÇÃO: Transmontanos de gema
Nadir Afonso foi ao Transmontanos de Gema
“Sou uma competência em arte, mas sou um analfabeto, um atrasado mental em muitas disciplinas”
Nasceu em Chaves, nunca perdeu a pronúncia, mesmo quando andou pelo mundo fora, vem sempre à terra natal…Por tudo isto é um transmontano de gema. Mas não é da sua origem que o pintor Nadir Afonso gosta de falar. Do que Nadir fala com verdadeiro entusiasmo é da origem da arte. Da essência. Da teoria. Da sua teoria da arte. “O que é que isto representa?”, perguntam-lhe quase sempre sobre os seus quadros. “São leis. Leis matemáticas”, responde. Poucos o compreendem.
Semanário TRANSMONTANO: Considera-se um transmontano de gema?
Nadir Afonso: Eu acho que sim. Nasci em Chaves. Os meus pais, um era de Montalegre , o outro de Sapelos, no concelho de Boticas.
ST: Então é barrosão?
NA: Os meus pais são, e eu tenho muita honra nisso, mas eu sou flaviense, nasci em Chaves.
ST: Já está há muitos anos em Lisboa, já se considera um alfacinha ou será sempre fla-viense?
NA: Eu sempre fui flaviense. Vivi muitos anos na França, acho que uns 30, agora já não me lembro bem. Fui para lá aos 28 até aos 50, também estive no Brasil, mas fui sempre flaviense. Sempre que podia vinha a Chaves, era aqui que via os meus amigos do Liceu. Os meus grandes amigos estão em Chaves, mas já morreram quase todos.
ST: Os transmontanos têm fama de lutadores, de ter garra, também é assim…
NA: Eu não sou muito lutador. Eu tenho é uma concepção de arte original e debruço-me muito sobre a arte. Fui um indivíduo que desde que me conheço meditei o fenómeno artístico e acho que sou uma competência. Não sei se sou imodesto, se não. Mas eu acho que posso dizer que sou uma competência em arte porque digo que sou um analfabeto, um atrasado mental em outras disciplinas. Quando se fala, por exemplo, em medicina, eu não percebo nada de medicina; fala-se em política, eu não percebo nada de política, fala-se em geografia, eu não percebo nada de geografia, não percebo nada de história, troco tudo. Sou um indivíduo que nunca me prendi muito a esses conhecimentos, mas fui um obcecado pela arte, pelas leis da arte, e toda minha vida meditei sobre elas e parece-me que consegui. Isto pode parecer imodesto, mas criei uma concepção de arte original. E isto é muito importante. E tão original que as pessoas não acreditam em mim.
ST: Não lhe dão ouvidos…
NA: Está a ver, aos estetas, aos arquitectos, nas universidades, ensinam-lhe coisas com as quais eu estou em desacordo…
ST: É controverso…
NA: Sou um indivíduo controverso porque cheguei a conclusões que eles não chegaram. Mesmo grandes filósofos, como Kant e Eagle, dizem coisas que eu acho que são grandes disparates. Eu trabalhei as formas e, ao mesmo tempo, meditei sobre aquilo que instintivamente criei. Quando fazia um traço, meditava: porque raio não fiz aqui um quadrado, não fiz um círculo? Porque meti uma linha recta e não meti uma linha curva? Fui um indivíduo que tentei compreender as motivações da minha obra, tentei elevar ao nível da consciência os impulsos intuitivos. E cheguei a conclusões. A conclusão mais importante da minha vida foi que a arte é regida por leis, coisa que os estetas não acreditam. E mais: as obras de arte são regidas por leis matemáticas. E as pessoas perguntam: mas eu não vejo lá matemática nenhuma? Está certo! Porque é uma matemática intuitiva, inconsciente, apreendida apenas por faculdades intuitivas, extremamente difíceis de perceber.
ST: Ainda tem esperança de que um dia a sua teoria venha a ser reconhecida como plausível?
NA: Há muita gente que acredita em mim, quando falo sobre arte. Realmente este macaco tem razão, este indivíduo pode ser inculto em muita coisa, mas…
ST: considera-se um homem inculto?
NA: Não me considero um homem culto. Fiz um curso de arquitectura sempre…
ST: À rasca…
NA: À rasca e sempre em contrasenso.
ST: Os seus pais preferiam que fosse arquitecto ou pintor?
NA: Os meus pais preferiam que fosse arquitecto. No meu tempo, já lá vão setenta anos, sem exagero, um pintor era considerado um analfabeto. Quando Cheguei às Belas Artes, com o requerimento para entrar em pintura, um contínuo disse-me: então você já tem um curso de liceu e vai-se inscrever em pintura? Oh homem, a pintura é uma coisa sem categoria nenhuma! Vá-se inscrever em arquitectura! E eu, covardemente, fui na conversa daquele contínuo. Covardemente, insisto nisto, rasguei o requerimento para pintura e fiz outro requerimento: Eu, respeitosamente, venho requerer a vossa excelência que se digne a aceitar-me no curso de arquitectura…
ST: ganhou mais dinheiro como arquitecto ou como pintor?
NA: Ganhei mais dinheiro como arquitecto. Só muito tarde é que comecei a vender.
ST: Quando vem para Chaves ainda pinta ou só vem para passar férias:
NA: O ideal era vir só passar férias, mas a minha vida é trabalhar, é pintar. Pinto sempre.
ST: A que horas costuma pintar?
NA: Depende. Posso estar deitado, lembrar-me que uma forma que fiz num quadro pode estar errada, porque uma pessoa revê em imagem o quadro que pinta à tarde e sou capaz de me levantar de noite…
ST: O que é que o inspira?
NA: Essa é uma pergunta muito interessante. Tenho a impressão que é tudo de uma maneira intuitiva. Eu faço um risco na tela, uma linha recta, uma linha recta é arbitrária... Eu digo vou fazer aqui o rosto de uma mulher, uma casa, uma árvore... evidentemente que é o raciocínio que intervém, mas a verdade é esta: quando meto uma forma, essa leva a outras formas. E quando a segunda intervém, essa já tem de ser proporcional à primeira, e aí já não é o raciocínio. A segunda forma é dependente da primeira através de leis matemáticas, a partir daí joga a intuição, o irracional, eu digo irracional, não digo intuitivo, porque não sei bem o que isso é. Quando começo a trabalhar a primeira forma pode ser muito racional, mas a seguir há um jogo de proporções matemáticas. As pessoas não acreditam nisto. Pensam que é tudo racionalizado. O verdadeiro artista não racionaliza, pode racionalizar momentaneamente, mas depois o mecanismo é dado por leis intuitivas.
ST: Já pintou algum quadro que não tenha gostado?
NA: Quantos quadros. Se na hora da morte tiver uma trintena de quadros que me agrade já me dou por satisfeito, e eu fiz milhares.
ST: Na rua, as pessoas reconhecem-no?
NA: Sim, sou reconhecido. Eu faço por ser um homem normal.
ST: Quando o abordam, o que é que as pessoas lhe perguntam?
NA: Como é que o senhor faz? O que é que isso representa? Ai, não representa coisa nenhuma, representa leis, são leis (coloca o dedo indicador na cabeça em sinal de que o tomam por louco). Leis de quê? Leis de matemática! (repete o gesto)
ST: A sua família compreende a sua teoria de arte?
NA: A minha mulher concorda comigo, se bem que ela me diz que tenho que ter cuidado com o que digo. Eu digo coisas sinceras e que caem mal. Uma das coisas que cai pior é quando falo na confusão que existe nas obras de arte. Há grandes artistas que são desconhecidos e artistas insignificantes que são muito conhecidos. E porquê?
Porque são políticos. A política anda no meio da arte como piolho no meio da costura. E eu digo: que sejamos políticos, que sejamos artistas, mas que não se misturem as coisas. A coisa que mais me choca na vida é ver um indivíduo que só por ser político ou politiqueiro é um artista muito conhecido; que é conhecido só porque é sustentado, é o termo, por críticos de arte que são da mesma cor. Eu acho isso revoltante!
ST: Regressemos à sua infância, estudou em Chaves…
NA: Eu era hipersensível. Qualquer coisa me chocava muito. Havia palmas. Havia uma professora... Um dia, cheguei ao meu pai e disse-lhe que não queria ir para a escola, que me batiam, e ele disse-me, então espera aí. O meu pai foi ao pé da professora e disse--lhe, ao meu filho não lhe batas. Mas assisti muito a apanharem nas mãos.
ST: Era brincalhão?
NA: Havia em mim uma sensibilidade doentia, mas, à parte disso, era uma criança normal.
ST: Os seus filhos pintam?
NA: Eu tenho a ideia de que eles podem ser pintores. Ainda não se revelaram. Eu até acho bem que não se revelem. A pintura não é uma actividade que dê satisfação. Há injustiças. A política está metida na arte.
ST: É adepto do Grupo Desportivo do Chaves?
NA: Do Chaves e depois do Porto.
ST: Por onde passa diz que é transmontano?
NA: Faço sempre questão de dizer. O senhor tem uma pronúncia que não é bem português? É que eu sou de Chaves. Nós temos uma pronúncia especial.
ST: Para terminar, uma definição de transmontano de gema...
NA: Um transmontano de gema…é uma pergunta difícil. É aquele que nunca perdeu a pronúncia transmontana por esse mundo fora, que é sempre transmontano ande por onde andar, que vem sempre à sua terra natal.
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