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SECÇÃO: Montalegre
Crime deixou população de Vilarinho de Arcos consternada
Septuagenário degolou a sobrinha, matou a mulher e suicidou-se
A aldeia de Vilarinho de Arcos foi palco de um crime de que não há memória no concelho de Montalegre. Na sexta-feira da semana passada de manhã, um homem de 72 anos degolou a sobrinha com uma navalha, matou a mulher a tiro e, a seguir, suicidou-se. As ameaças já seriam antigas. À esposa por ciúme, à sobrinha por discussões frequentes.
Ao que foi possível apurar, o primeiro crime terá acontecido cerca das 08h30. José Fernandes terá esperado que o marido da sobrinha e o filho, de 14 anos, saíssem de casa, mesmo em frente à sua, para entrar no quarto onde Ana Maria Sousa, de 42 anos, ainda dormia. Pela quantidade de sangue existente na cama, presume-se que tenha sido aí que José lhe desferiu um corte na garganta com uma navalha.
Descalça e deixando atrás de si um rasto de sangue, Ana Maria ainda conseguiu descer as escadas e andar cerca de 300 metros até à estrada principal da aldeia. “Coitadinha, ela já não conseguia dizer nada! Só fazia gestos com a mão para nos tentar explicar que tinha sido o tio da barriga grande que lhe fizera aquilo. Depois caiu e ficou-se logo”, recordou Orlando Ferreira. “Olhe que eu sou duro, é difícil chorar, mas quando vi assim a moça, não aguentei”, lembrava, por sua vez, Avelino Gonçalves, outro morador, inconformado com a sorte da conterrânea.
A avaliar pela hora a que alguns vizinhos ouviram o som dos disparos, José terá morto a mulher e cometido o suicidio pouco tempo depois de degolar a sobrinha. Os corpos foram encontrados pela GNR de Montalegre e pela PJ no interior de um armazém agrícola quase colado à casa da sobrinha do homicida. Presume-se que Arminda Pires, de 67 anos, tenha sido surpreendida pelo marido quando alimentava os coelhos e as galinhas. O tiro, de pistola, terá sido disparado a curta distância. Acertou-lhe na cabeça. A seguir, o septuagenário terá disparado sobre si próprio. Ao que tudo indica, teria a navalha com que degolara a sobrinha no bolso.

Ameaças antigas
Apesar de chocada com a tragédia, a população não se mostrava completamente surpreendida. José há já muito que ameaçava de morte quer a mulher quer a sobrinha. Por diferentes motivos. À mulher, por um ciúme doentio que ninguém conseguia perceber. “Meteu-se-lhe uma maluqueira na cabeça, que a mulher não podia fazer nada: se ia para o tanque, ia com ela, se ia às compras, ia com ela… Os homens da aldeia já nem falavam com ela para evitar chatices”, contou uma moradora. “E eu tantas vezes lhe disse: ‘tia Arminda deixe-o vá para onde os seus filhos’, mas ela tinha medo porque ele até os filhos dizia que matava”, contou outra habitante. Há cerca de um mês, numa das discussões com a mulher, com recurso a violência, a GNR de Montalegre chegou a intervir na sequência de uma denúncia anónima. Nessa altura, durante a busca à residência foram-lhe apreendidas duas caçadeiras. As discussões com a sobrinha também seriam frequentes. “Discutiam por tudo e por nada, mas nunca pensei que chegasse a este ponto”, admitiu o marido de Ana Maria. A última discussão teria acontecido na tarde anterior ao crime. Ele ter-lhe-á cortado umas galhas de um pinheiro e ela uma cerejeira. No entanto, alguns moradores acreditam que a raiz do ódio teria a ver com o facto de Ana Maria ter contado à mulher do tio que este a assediava. Também havia quem julgasse que o ódio tinha aumentado porque José desconfiaria que foi a sobrinha que o denunciou à GNR aquando do episódio de violência doméstica de há cerca de um mês.
Ao chegar ao local, uma das filhas do alegado homicida sentiu-se mal, tendo sido transportada ao centro de saúde. O filho de Ana Maria está a ser acompanhado pelo psicólogo da escola.
O pai de Ana Maria e irmão do alegado homicida também não se conformava. “O que ele fez não se faz. Não tenho pena nenhuma dele. Quero que vá para o inferno”, desabafava, a andar de um lado para o outro.
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