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Edição de 13-05-2011

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SECÇÃO: Transmontanos de gema

Jornalista e escritor José Francisco Viegas no Transmontanos de Gema
“Tenho uma enormíssima lealdade a Chaves”

fotoSe é de gema, ou não, não sabe, mas transmontano é de certeza. E se há coisa que o irrita é que lhe digam que “perdeu o tom transmontano”. Porquê? Porque “transmontano é aquele que rompe o isolamento, que é cosmopolita e que não tem medo do estranho, do diferente”. Natural do Pocinho, o jornalista e escritor Francisco José Viegas passou parte da sua adolescência em Chaves, cidade onde diz ter aprendido “o essencial da vida”. A propósito do lançamento do seu último livro, respondeu a algumas questões ao Transmontanos de Gema, uma iniciativa conjunta do Semanário TRANSMONTANO e da Rádio Larouco.
Semanário TRANSMONTANO: Apesar de viver no Estoril, considera-se um transmontano de gema?
José Veiga: De gema não sei, mas considero-me um transmontano, sou um bocadinho dividido entre várias coisas, dividido entre uma lealdade muito grande à terra onde nasci que é o Alto Douro e tenho uma lealdade enormíssima em relação a Chaves, onde eu vivi o período essencial, a adolescência. Essa lealdade manifesta-se em relação a Chaves de uma maneira muito especial, porque foi a cidade onde eu aprendi o essencial da vida, foi a cidade onde eu li mais. Tínhamos uma livraria aqui em Chaves, que era a livraria Ana Maria, e eu e um amigo meu que já morreu, o Manuel Francisco, todos os sábados íamos arranjar a montra da livraria. E também foi a altura em que o liceu de Chaves alterou e reestruturou a sua bi-blioteca, e nós estivemos ligados a isso, portanto, é uma cidade que eu conservo na memória, não só por ter vivido cá e não só por ter a minha família cá a viver, mas também porque parte essencial daquilo que eu sou hoje devo a Chaves.
ST: Tem um blogue que se chama a Origem das Espécies, a origem geográfica determina aquilo que somos?
JV: A origem, aqui, também tem um significado de raiz, ou seja, quando se faz uma leitura do mundo procuramos ir à raiz, à origem das coisas e a origem das coisas é sempre especial porque me lembra Chaves. Por exemplo, quando fecho os olhos e me lembro de Chaves, lembro-me das noites de Inverno, eu e o meu grupo de amigos a passear pelas ruas de Chaves completamente desertas, caía assim uma neblina, era em Novembro... A primeira rádio que houve em Chaves, era uma rádio pirata com um emissor construído por nós e, portanto, lembro-me disso, lembro-me do primeiro passeio de bicicleta na Primavera, lembro-me de coisas muito soltas, isso é a minha origem...
ST: Durante a apresentação do seu último livro, referia que Chaves está sempre presente nas suas obras, de que forma?
JV: Como lugar. Há um livro, que é o Céu Demasiado Azul, onde uma parte essencial da história se passa aqui, em Chaves, passa-se numa geografia muito especial entre um bar de um hotel, uma série de ruas e, portanto, é um cenário; O Mar em Casablanca, este último livro, uma parte essencial, ou, se quisermos, o centro mais exclusivo da narrativa, é aqui em Chaves. E, por outro lado, quando nós procuramos características de personagens, características de pessoas que nos marcaram mais ao longo da vida, eu costumo vir a Chaves, vir às minhas memórias de Chaves. O próprio detective tem também alguns tiques, físicos, de pessoas que eu conheci e conheço em Chaves, e portanto, é uma fonte de inspiração.
ST: Que ligações é que mantém aqui? Vem cá regularmente?
JV: Relações familiares. Sim, venho cá. Estive cá na semana passada, por exemplo, venho cá quando posso e, às vezes, quando preciso de uma tranquilidade familiar, de um certo repouso e quando tenho saudades.
ST: Lembra-se quando namorou no Jardim das Freiras?
JV: Sim, no Jardim das Freiras e no Tabolado, em todo lado. Felizmente, há uma grande geografia de namoros na cidade de Chaves, que era uma cidade bastante liberal para a época, porque era uma cidade que, ao contrário de outras cidades transmontanas, mesmo Vila Real, era uma cidade que tinha dois ventos: um vento que vinha directamente do Porto e outro que vinha de Espanha, e estes ventos eram muito liberais. Eu lembro-me de nós, miúdos da minha geração, ao sábado, irmos de carro a Espanha não só para comprarmos coca-cola e jeans Lois e a edição da Playboy em francês, não havia em espanhol e tinha de ser em francês. No meu tempo não se vendia ganga e coca--cola aqui em Portugal. Era um ciclo muito liberal, eu não digo que houvesse uma grande tolerância, havia era uma grande disponibilidade de espírito.
ST: Quando não está em Chaves, como é que mata saudades, diz também que algum tempo atrás ia esperar as pessoas ao autocarro, hoje como é que mata saudades?
JV: Vou à Internet.
ST: Gosta da cidade como está agora?
JV: Gosto de fotografias da cidade, enquanto passeio à noite na cidade, nestas ruas, na Rua Direita, ainda no Correio Velho, na Major Sousa Machado, ao descer na direcção das caldas, gosto de uma certa arquitectura que está a ser recuperada, que era um arquitectura que Chaves mantinha cu-riosamente nos anos 50 e que depois perdeu e que agora recuperou.
ST: Da música para o prato, é transmontano no prato?
JV: Menos do que gostaria, quer dizer, quando se fala de comida transmontana é um bocadinho as raízes da minha gastronomia própria, mas o meu problema é que gosto de experimentar outras coisas, desde a comida japonesa até à cozinha russa, ou cozinha marroquina, passando pela italiana. Curiosamente, hoje, nas gerações mais novas, os regimes alimentares são muito mais restritivos, por exemplo, a cozinha transmontana tem um capítulo essencial que é pouco valorizado, que é a cozinha de vegetais, de legumes. A cozinha transmontana é essencialmente vegetariana e é muito curioso ver que é muito equilibrada, tem períodos de grande festa, Carnaval, Natal, etc. que são períodos de loucura, mas é muito equilibrada.
ST: E pasteis de Chaves, leva?
JV: Já estão no carro, pasteis, empadas, bolos, já foram comprados numa das melhores casas, que é a do João Padeiro.
ST: Alguém dizia que em Chaves fala diferente, ainda mantém algum sotaque?
JV: Eu adopto sotaques. Quando vou aos Açores, passados 10 minutos, já estou falando um bocadinho açoreano; quando venho para Chaves, obviamente, venho por osmose. Ao fim de umas horas, começo a falar muito como eu falava há muitos aqui.
ST: Acha que os flavienses sabem quem é o Francisco José Viegas?
JV: Alguns sim, outros não. Eu quando venho a Chaves conheço pouca gente, tenho memória de todas as pessoas, mas Chaves mudou muito desde a altura em que eu vivia aqui. Quer dizer, eu quando saía conhecia toda a gente, nos anos 80, quando eu saí de Chaves, conhecia toda a gente, hoje não e, portanto, também é um sítio onde observo mais do que sou observado, isso também é bom. Mas eu penso que não [que não sou conhecido], também porque eu sou escritor e os escritores também não são muito populares e em Chaves também nunca houve grande popularidade de escritores.
ST: Para rematar qual é a sua definição de transmontano de gema?
JV: É uma pessoa que tem ligação a Trás-os-Montes, o grande problema é quando tentamos definir um transmontano e o definimos com as suas características físicas, pelo seu sotaque, pela sua sensação de pertencer a Trás-os-Montes e pela sua transmonteinidade, uma das características essenciais de um grande transmontano é aquele que saí e entra conforme Trás-os-Montes, eu penso que Trás-os-Montes melhorará quando conseguir captar pessoas de fora, são as pessoas de fora que engrandecem, foi sempre assim, e, portanto, as grandes nações evoluíram, cresceram e tornaram-se mais apetitosas na medida em que conseguiram canibalizar, ou seja, devorar o que lhes era estranho e transformá-lo em seu, eu acho que, às vezes, há sensação de dizer, não, isto não é transmontano, este não é transmontano. Justamente, o transmontano deve devorar o outro, quer dizer, apropriar aquilo que é bom de fora transformá-lo em coisa sua. Às vezes irrita-me muito a sensação de que me digam: “Ah, tu já perdes-te o tom transmontano”. Não, não se perde, quer dizer, o transmontano é no submundo, quer dizer, os transmontanos imigraram para todo o lado e para todo o lado onde imigraram fizeram coisas maravilhosas, no Brasil, na América, no Oriente em África fizeram coisas fantásticas e é pena que pensem que o transmontano é aquele que vive isolado para cá do Marão. Não, transmontano é aquele que rompe esse isolamento e que é cosmopolita e que não tem medo do estranho, do diferente, esse é que é transmontano.





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