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Edição de 13-05-2011

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Arquivo: Edição de 19-03-2010

SECÇÃO: Transmontanos de gema

Alexandre Chaves responde a assuntos sérios e não só...
“Falo a língua do meu pai, da minha mãe e dos rapazes da minha terra...E falo bem!”

fotoCultiva o sotaque flaviense, mesmo quando lhe chamam parolo; gosta, e muito, de cozido e cabrito; é sócio do Chaves, mas não tem as cotas em dia; ao sábado, dedica-se à agricultura...Alexandre Chaves, o actual Governador Civil de Vila Real, é o primeiro entrevistado da rúbrica “Transmontanos de gema”, uma iniciativa do Semanário TRANSMONTANO e da Rádio Larouco. Assuntos sérios? Também há. Na entrevista, o ex-autarca flaviense explica por que dizia sempre que sim aos munícipes e por que é a favor da construção das barragens para o rio Tâmega.
Semanário TRANSMONTANO: Fala com sotaque porque não se consegue desenvencilhar dele ou por opção?
Alexandre Chaves: Eu falo à Chaves, não por snobismo, mas por que gosto. Foi assim que aprendi a falar.
ST: Nunca ninguém lhe chamou parolo?
AC: Sim, quando saí de Chaves fui para Braga para o Colégio Sá de Miranda e as pessoas perguntavam: de onde é que é este gajo? Tem uma postura, uma linguagem, uma maneira de se exprimir tão genuína, parolo, se quiser. E eu dizia: eu sou de Chaves. Está-me na alma, já nem sou capaz de mudar nem quero. Sinto-me bem assim.
ST: Na aldeia, fala na mesma ou ainda mais parecido com os locais?
AC: Falo na aldeia como falo com um ministro, no parlamento, como falaria com o rei, se existisse. É assim que nos identificámos, ele [o falar] exprime a minha cultura, a minha ancestralidade, a minha matriz rural, que nunca quis perder. Portanto, aos 60 anos, e olhando para trás, creio que falo a língua do meu pai, da minha mãe e dos rapazes da minha terra... E falo bem!
ST: Como começou na política?
AC: Houve um facto que me marcou muito. Um dia, uma tia minha disse-me que a filha, a Bertinha, tinha fugido para a Suíça. E eu, que ainda era catraio, fiquei preocupado e comecei a perguntar: e teve que fugir porquê? A minha tia lá me ia explicando, e eu, ao longo do tempo, fui percebendo que as razões entroncavam, por um lado, na guerra das co- ló-nias, que não era bem enten-dida, sobretudo pelos mais jovens, e, por outro lado, porque havia um regime em que não se podia falar, porque a polícia podia mandar prender. Além disso, havia muitas desigualdades sociais. Na minha aldeia éramos cerca de 20 rapazes e só eu fiquei, os outros tiveram que emigrar. Ora, tudo isto me levou a pôr porquês. Depois, na faculdade, um rapaz de economia, que era mais velho que eu, tinha livros proibidos que líamos e foi aí também que comecei a despertar, a ter vontade de contribuir para a mudança.
ST: Lembra-se do primeiro discurso político que fez?
AC: Foi em Valpaços, nos primeiros dias de 74 (pós revolução), entre Agosto e Setembro. Houve lá uma manifestação, a mim disseram-me para falar sobre as ideias que o PS tinha para o futuro. Fiquei um pouco atrapalhado. Era na Praça, tinha uma espécie de varandim para o largo da Igreja. E lá falei, disse o que me veio à alma, dentro da ideia que era necessário mudar, melhorar, evoluir.
ST: Quem o influenciou na política?
AC: A pessoa que mais me motivou a ser socialista foi um rapaz da minha idade, ainda estava na chamada Juventude Católica. Chamava-se António Guterres, era uma rapaz com uma capacidade de organização, de exposição e de dedução enormes. A ele devo a minha adesão aos valores e aos princípios do PS.
ST: Enquanto autarca, uma das críticas que lhe era feita recorrentemente era o facto de dizer sempre sim, independentemente de depois poder cumprir. Tinha dificuldade em dizer não?
AC: Não! Sabe, é necessário fazer a pedagogia da política. As pessoas apareciam no gabinete com problemas para resolver, problemas que tinham solução. Eu não podia tirar a utopia da resolução a uma pessoa que ia pedir para lhe fazer a rua, o saneamento, o projecto da casa... Era uma dor de alma, perante uma questão humana, e tão complexa, dizer não. Os serviços públicos, municipais ou outros, nem sempre tem a cultura de pugnar para resolver os problemas das pessoas. E eu não me resignava e, por isso, dizia às pessoas: eu estou ao seu lado para resolver os problemas. Esta era uma nova cultura, uma nova postura de atendimento ao munícipe. Obviamente que tem que se dizer não às situações de injustiça, quando nos pedem coisas contra a Lei. Mas eu pus na minha boca a palavra sim, em contraponto a um cultura da administração do não. E às vezes era mais fácil dizer não, porque assim as pessoas nunca mais nos apareciam no gabinete. E quando dizia sim, era porque tinha a ideia de lá chegar. Às vezes, no caminho apareciam engulhos que não podíamos ultrapassar, então eu dizia: sr. Zé...
ST: Diz-se que o Governador Civil só corta-fitas. É assim?
AC: Eu ainda não cortei nenhuma. Somos um país não regionalizado, a Espanha já o é. Em cada região há um governador e em cada província uma vice-governador. O Governador Civil tem que ser um ouvidor dos cidadãos, uma espécie de ponte entre o poder local/regional e o nacional. Há problemas que têm que ser resolvidos pelo Governo, têm que ser encaminhados; também têm que promover a protecção civil e a segurança rodoviária. Neste momento, no distrito de Vila Real estão a ser construídos oito novos quartéis de bombeiros. Chaves vai ter um, já está em construção, é um investimento de cerca de 3 milhões, e o Governo Civil está muito empenhado. Além disso, ainda hoje (sexta-feira da semana passada), apresentámos uma candidatura ao Quadro de Referência Estratégica Nacional para equipar, em termos de equipamentos individuais, todas as corporações de bombeiros, desde as botas, às camisas, às camisolas... para que haja um sentimento de segurança. Se não estiverem bem equipados e se estiverem mal instalados nos seus quartéis, os soldados da paz não têm motivação. Também cooperamos com as forças de segurança, PSP, GNR, PJ, Serviços de Estrangeiros e Fronteiras. E, mensalmente, reunimos para avaliar o grau de segurança. Felizmente estamos num distrito seguro.
Ser Governador Civil do distrito é um privilégio, é fazer a ponte, ser provedor dos cidadãos...
ST: As barragens previstas para o rio Tâmega estão a levantar muitas críticas. Já tem opinião formada sobre o assunto? É a favor ou contra?
AC: Temos de ser racionais e equilibrados no pesar das relações a favor e contra. Eu sou a favor que os recursos de um país devem ser utilizados para o bem da so-ciedade e da riqueza nacional, para bem dos cidadãos. Não me oponho à construção de barragens. Isto é, não deixar que a água corra para o mar sem deixar nada, quando pode deixar economias. Mas nunca se pode pôr o problema a favor e contra as barragens. Sou a favor desde que os impactes ambientais sejam aceitáveis.
* Esta entrevista pode ser ouvida na íntegra hoje, a partir das 10h30 na Rádio Larouco, em 93.5.

Perfil
Nome: Alexandre Chaves
Idade: 62 anos
Naturalidade: Águas Frias
Grau de formação: Licenciatura em Ciências Políticas e Sociais
Função: Governador Civil de Vila Real
Tempos livres: Ler e trabalhar a terra. “Até tenho umas vaquitas”.
Pratos preferidos: Cozido, cabrito assado. “ainda mato um porco a meias com o meu irmão”.
Na refoma: Viajar, conhecer sítios com história.
Clube: É sócio do Chaves, não tem as cotas em dia, há cerca de um ano e tal, mas quer acertar contas.
Definição de transmontano de gema: Alguém que tem gosto na sua terra, que luta por ela, esteja onde estiver, e que é um embaixador dela onde estiver.





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