Arquivo: Edição de 07-01-2011
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Há 4 meses que todas as aldeias têm carreira à porta “A gente paga o bilhete e pronto! Não fica a dever favores a ninguém!”
Se não fosse aquele cabelo, Vanessa, de 14 anos, até tinha boleia mais tarde. Mas não. Saiu ao pai. Tem muito e encarapinhado. Quando quer esticá-lo é o cabo dos trabalhos. Às vezes ocupa duas cabeleireiras: uma agarra-lhe a cabeça a outra estica-lhe os caracóis. Por isso, na sexta-feira, com festa de fim-de-ano à espreita, não teve preguiça. Levantou-se e foi apanhar o autocarro que em tempo de aulas a leva para a escola. Ainda antes das 9h00 haveria de estar em Montalegre à porta do cabeleireiro para apanhar vez. Jéssica, 17 anos, amiga de Vanessa, com menos cabelo, mas quase tantos caracóis, optou por um penteado ao natural e caseiro. Por causa do tempo a ameaçar chuva. Mas foi fazer companhia à amiga. Às 7h40 foram as primeiras passageiras da carreira que faz a ligação da aldeia de Meixide à sede do concelho. E quase, quase as últimas. Em Vilar de Perdizes, ninguém, em Solveira… ninguém, em Santo André… ninguém… “Hoje é mau dia! Fim-de-Ano! Já no Natal foi igual. Se viesse na segunda já não faltava gente, para não falar ao dia de feira”, explica o motorista. Maria Alice Teixeira, de 66 anos, a terceira passageira, haveria de entrar na penúltima paragem do autocarro. Saco e guarda-chuva num braço, dinheiro certinho do bilhete na mão. É passageira habitual. Ainda na terça-feira apanhou a carreira para ir ao centro de saúde aos medicamentos. Para a tensão, o colesterol e para os diabetes. Para ela e para o marido, nove anos mais velho. Ela é que toma conta de tudo. “Já com o meu primeiro marido eu é que era a senhora do dinheiro e agora também”, explica. O autocarro à porta vale-lhe muito. É que Maria Alice não gosta de ficar a dever favores a ninguém. “Assim, a gente paga e pronto!”, explica. Hoje [sexta-feira] Maria Alice ia especialmente ao talho. “Vou buscar rojões”. E, “se Deus quiser”, ainda os há-de pôr a fazer hoje. No pote e “com rachas de carvalho”. Desde o início do ano lectivo que todas as aldeias do concelho de Montalegre têm transporte público à porta. O serviço resultou de uma reorganização da rede de transporte escolar por forma a que o circuito servisse também a restante população. Ao todo, foram criadas 25 carreiras. E, pelas contas da autarquia, o aumento de custos em relação à factura já paga pelo transporte escolar foi de apenas 200 mil euros. Mas o que o presidente da Câmara, Fernando Rodrigues, gosta mesmo de realçar é “o alcance social e a justiça” da medida. “Coloca os barrosões, que estão longe da sede do concelho em igualdade com os que estão na sede, no acesso aos serviços públicos, à saúde, ao comércio, porque passa a existir transporte acessível todos os dias, de todas as aldeias, de modo que as pessoas possam deslocar-se e fazer a sua vida normal sem grandes encargos no transporte”, assegura o autarca, garantido que já há municípios que querem importar a solução e que até a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro se interessou pelo caso. “Quis saber como é que nós fizemos e atribuiu ao projecto grande mérito, pelo alcance social do transporte público, que é implementado em regiões de montanha”, concluiu Rodrigues. Por: Margarida Luzio |


