
Imprimido em 07-06-2011 05:00:01
Semanário Transmontano
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SECÇÃO: Opinião
Cravo & Ferradura
A luta continua?
Há poucos dias atrás dei comigo a fazer algo que já não fazia há muito anos: assisti ao Festival da Canção, na RTP1. Para que não existam dúvidas, eu considero o evento uma verdadeira pessegada, uma mostra de canções fraquitas e inócuas, dispensáveis e etéreas. É um acontecimento que continua a viver à sombra do passado, tendo sido importante para alguns laivos de subtil protesto contra o regime antes do 25 de Abril.
Tal vacuidade festivaleira estende-se, obviamente, ao Eurofestival, suposto apogeu da música ligeira europeia mas que não é mais que uma montra de fancaria, em versão eurotrash. Desafio os leitores a recordarem alguma banda ou intérprete que tenha conseguido obter uma carreira longa e consistente como consequência da participação no principal concurso de canções europeu. Eu só me lembro de uma. Era um quarteto, duas mulheres, dois homens, oriundo da Suécia. Se estão a pensar nos Abba então a resposta é correcta.
A anedota dentro da anedota
E porque estou a escrever sobre festivais de cançonetas? Porque na edição deste ano, e não sem alguma surpresa, venceram os Homens da Luta, liderados pelos sempre inconvenientes, cáusticos e, muitas vezes, propositadamente reles, Jel e Falâncio.
Não sou um fã dos rapazes e das suas diatribes mas convenhamos que num país apático, deprimido e estranhamente acomodado, muitas vezes não há nada como uns bons berros de megafone para acordar o pessoal.
Aquilo que era para ser pouco mais do que uma piada, uma caricatura aos pregões revolucionários, ganhou o Festival da Canção. Calculo que para a RTP o tiro saiu pela culatra pois na sua convicção de mostrarem um espectáculo digno (segundo os seus padrões televisivos), e do contento de todos os portugueses, a coisa deu para o torto. Isto é, ganhou a canção que é uma suposta piada e que num país quase transformado em anedota, mas com poucos motivos para sorrir, funcionou como uma canção de protesto. A ironia é que a canção vestiu a pele de uma verdadeira bandeira de protesto (de uma forma menos séria e sincera do que uma badalada canção dos Deolinda), mas mesmo assim funcionando como um sorridente incentivo de uma ida à luta num país à rasca.
Com toda a alegria, até à luta escrivã da próxima crónica.
Por: Bruno Cunha
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