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Edição de 05-02-2010
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Arquivo: Edição de 06-11-2009

Valpaços

Funcionária da Santa Casa da Misericórdia burlada

Compraram carro a crédito em seu nome com documentos falsos

Lídia Cunha lamenta que a situação à qual diz ser alheia lhe tenha parado a vida
Lídia Cunha lamenta que a situação à qual diz ser alheia lhe tenha parado a vida
Uma mulher de Carrazedo de Montenegro está há mais de um ano a braços com uma alegada burla que ainda não conseguiu desmontar e lhe está a complicar a vida. Quando tentou simular um crédito para comprar uma carrinha, Lídia Cunha descobriu que em seu nome existia um crédito noutra instituição bancária para a compra de um carro, no valor de mais de 14.500 euros. Os documentos usados para contrair o crédito eram falsos. No entanto, até agora, o caso ainda não foi resolvido, e Lídia já esteve na iminência de ver um terço do seu salário penhorado.

Porque o carro que possuem já é muito velho, em Agosto do ano passado, Lídia Cunha e o marido começaram a pensar em comprar uma carrinha de cinco lugares. Em segunda mão. Foram, então, ao seu banco para fazer uma simulação. “Estávamos a pensar fazer um crédito de uns cinco mil euros, por forma que nunca ultrapassasse os 150 euros mensais, para não passarmos fome, que é mesmo assim!”. Lídia, de 31 anos, é funcionária, há 14 anos, no lar de idosos de Carrazedo de Montenegro, da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços. Ganha o salário mínimo nacional. O marido recebe outro tanto. Têm dois filhos, de 13 e 4 anos. Quando o funcionário do banco introduziu os dados para proceder à simulação surgiu a surpresa. O casal foi informado que Lídia tinha já a seu cargo um empréstimo no Santander Consumer (líder no mercado português em termos de financiamento automóvel) para a compra de uma viatura. Lídia ficou para “morrer”. “Aos pobres tudo lhes acontece!”, desabafa.

No entanto, a funcionária do lar de Carrazedo só ficaria a conhecer os pormenores da “burla” quando requereu àquela instituição bancária o contrato do crédito, que garante a pés juntos nunca ter feito. “Vejam só, puseram-me lá como se fosse uma ricalhaça e eu sou uma pobretainas! Se eu algum dia ia comprar um carro de luxo, que eu nem sei como é, e pedir aquele dinheiro todo. Se o pedisse era para arranjar a casa que está a cair”, garante Lídia. As cópias dos documentos anexos contrato, a que o Semanário TRANSMONTANO teve acesso, são falsos. A declaração de rendimentos apresentada, e na qual consta o seu nome, embora sem o apelido do marido (Cunha), dá-a como escriturária de uma empresa de limpeza do Porto. Segundo este recibo de vencimento, Lídia recebe por mês 911,50 euros. “Quem me dera a mim, nem metade!”, brinca Lídia. Para comprovar a morada da peticionária, foi apresentado uma factura/recibo de água. No documento também consta o nome de Lídia, novamente sem o apelido Cunha, mas a morada não é a sua, é de Rio Tinto. A cópia do Bilhete de Identidade tem apenas dois erros. Lídia aparece como sendo divorciada, quando no seu BI o seu estado civil é casada, e também sem o apelido do marido. Existe ainda uma cópia do seu cartão de contribuinte. “Não consigo perceber. Eu nunca saio daqui, as únicas vezes que fui ao Porto foi para acompanhar a minha mãe ao IPO, não perdi os documentos, não entendo como é que um banco pode fazer assim um crédito sem nunca me ter visto”, diz Lídia. Na cópia do BI, foram colocados os supostos contactos de Lídia, dois números fixos e um de telemóvel. No entanto, como o Semanário TRANSMONTANO confirmou, nenhum deles funciona.

De acordo com o contrato do crédito, o veículo terá sido adquirido no stand “Cá te espero”, de Manuel Joaquim Unipessoal Lda, e com sede em Melres (Gondomar). Nas páginas brancas e amarelas, o SemanárioTRANSMONTANO não encontrou qualquer registo da firma em causa. Lídia teria que pagar a dívida em 84 prestações de 279,75 euros. A primeira vencia a 15 de Agosto do ano passado, pouco tempo depois de Lídia ter descoberto a alegada burla.

Mas o caso continua por resolver. Em Julho do ano passado, esteve na iminência de ver penhorado um terço do seu vencimento, depois de a Santa Casa da Misericórdia de Valpaços ter sido notificada nesse sentido. O processo de penhora interposto pelo Santander Consumer decorre no Tribunal de Gondomar. Lídia reclamou. E, até agora, ainda não recebeu qualquer resposta. A funcionária da Santa Casa não se conforma. “Enquanto isto não se resolver não posso pedir nenhum credito. A minha vida parou”, lamenta.

Banco aconselha lesada a apresentar queixa crime

Na carta enviada a Lídia Cunha com a cópia do contrato, o banco Santander Consumer explica que aceitou a celebração do contrato de financiamento a crédito do carro, “após análise cuidada de todos os elementos fornecidos (cópia do Billhete de Identidade, Número de contribuinte, declaração de rendimentos...)”; que o contrato foi assinado com “assinatura conforme o BI” e que, por isso, “de boa fé, o Banco Santander Consumer Portugal SA pagou o preço do veículo”. Em declarações ao Semanário TRANSMONTANO, via e-mail, o banco informou que aconselhou Lídia Cunha a “apresentar uma queixa-crime junto das autoridades competentes, com vista a averiguar eventual crime de burla e de falsificação de documentos”. “Após apresentação da aludida queixa tal documentação deverá ser entregue junto dos nossos representantes com vista a ser analisado para futuros efeitos jurídicos”, explicou ainda o banco.

Por: Margarida Luzio


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