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Edição de 30-07-2010
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Arquivo: Edição de 16-01-2009

Opinião

Cravo & Ferradura

No preservar é que está o ganho

Mas não culpemos sempre o poder central ou local pelos descuidos ou incúria dos outros, isto é, nós.

Há uns bons anos atrás, ainda a crise estava soterrada por uma boa camada de ilusões, decidi que a melhor forma de conhecer os cantos mais recônditos e de difícil acesso do país era trocar o meu carro ligeiro por um todo o terreno. Graças a ele, eu e a minha mulher pudemos ver mais de perto monumentos e paisagens que de outra forma nos estariam inacessíveis.

Percorremos o país de Norte a Sul, aos solavancos e de mapa em punho, buscando menires remotos, castelos abandonados e paisagens ímpares. Va-riadas vezes o nosso contentamento foi desmedido por estarmos longe da confusão das multidões, respirando ar puro e a contemplar bocados da nossa história, cristalizados em cenários muitas vezes selvagens e intocáveis. Mas, por vezes, surgia de mansinho o reverso da medalha: indicações escassas de itinerários, monumentos abandonados e em mau estado de conservação, e apreciáveis quantidades de lixo, retrato impiedoso de um civismo que ainda não está completamente arreigado nos nossos hábitos de cidadãos do dito 1º mundo (leia-se União Europeia).

Será tudo uma questão de poder?

Tendo em mente uma notícia do Semanário Transmontano, na qual se reportava o abandono do castelo de Monforte, é com pena que vejo ao que chegou muito do nosso património, seja ele de pedra e cal ou paisagens, campos, montanhas, rios e praias.

É um facto que muitas vezes os nossos poderes – desde o central ao local – ou não tem verbas suficientes (ou então aplica-as as mal ou tem outras prioridades), ou não está sensibilizado para estes assuntos ou, simplesmente, considera que é coisa que não dá votos. Mas não culpemos sempre o poder central ou local pelos descuidos ou incúria dos outros, isto é, nós.

Quantas vezes não visitamos monumentos e paisagens bem cuidados, com o mínimo de infra-estruturas, e reparamos que o lixo é semeado ao vento, mesmo com caixote de lixo bem visíveis? Há 2 anos atrás visitei o castelo de Monforte e pareceu-me tudo impecável. Certo que não havia nada sobre a história do castelo mas toda a zona estava cuidada. Assim, ao ler no Semanário Transmontano que o espaço possa já estar abandonado é algo que me entristece (e acredito que não apenas a mim). Fiquei a pensar noutros pontos de interesse que visitei em paragens nortenhas. Como estará castelo de Montalegre? Ou mosteiro de Santa Maria das Júnias, no Gerês oriental? Visitei-o várias vezes mas encontrei-o sempre num lastimável estado de conservação.

Não continuo com o rol para não parecer um roteiro de viagens mas os exemplos poderiam continuar...

Os bons ventos

Não creio que Portugal e os portugueses devam cultivar a postura do que aquilo que é feito lá fora é que é bom e que nós somos sempre um bando de incapazes. Ou então o contrário, ou não fôssemos o país do 8 ou do 80. Mas como já disse neste espaço reservado às minhas crónicas, acho que deveremos sempre prestar atenção aos bons exemplos.

Há quem diga que de Espanha não vem nem bom vento, nem bom casamento mas, no que toca ao assunto que abordo, há que aproveitar as boas brisas. Por exemplo, a caminho de Ourense encontra-se a povoação de Allariz. A forma como recuperaram a sua zona ribeirinha, e o bom estado de conservação da povoação, é de assinalar. Espero que continue assim. Outro exemplo: as antigas minhas romanas de Las Médulas, perto de Ponferrada, em Castilla-León. Para além de ter ficado impressionado com o todo o cenário, o conjunto denota um cuidado singelo mas eficaz. Mas, felizmente, os bons ventos não sopram apenas de Espanha. Lembro-me de ter visitado o castelo roqueiro de Pena de Aguiar e de ter ficado agradado tanto com o monumento – que desconhecia – como com o seu estado de conservação, tendo informações disponíveis, reforçadas pela simpatia de uma funcionária que, ao tempo, estava de plantão turístico ao castelo. Espero que assim perdure, de preferência com um apreciável número de visitantes mas sem nenhuma invasão de lixo ou de qualquer outra degradação que deite por terra a defesa deste nosso património.

Bons monumentos, boas paisagens e até à próxima crónica.

Por: Bruno Cunha


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