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Edição de 30-07-2010
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Opinião

Cravo & Ferradura

Que entre em cena o CCC

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Se até a capacidade de ver e conhecer coisas novas se esvair então, aleluia, bem podemos ficar descansados pois afinal o raio da globalização também serve para ter gente mansa, a consumir enlatados massificados.

Como já escrevi numa das minhas crónicas, todos os anos vou a Chaves. Obviamente que assumo uma postura descontraída pois quando me desloco à cidade estou de férias e ainda por cima sempre curtas. Mesmo assim não fico desatento ao que se passa em Chaves e nas suas imediações.

Há comboios que não se devem perder

Este Verão, ao passar perto do Centro Cultural, fui atraído pelo som de instrumentos de sopro. Para o meu ouvido curioso, a melodia não se encaixava naquilo que é costume ouvir-se numa banda filarmónica, e isto sem desprimor nenhum pelo reportório que costumam tocar. Fiquei a saber por um dos músicos que se tratava de um ensaio pois no final dessa tarde iriam actuar junto à antiga estação do extinto caminho de ferro.

Se a música que tocavam me assentou muito bem, mais contente ainda fiquei quando me convidaram (a mim, à minha mulher e a uma nossa amiga flaviense, que todos os anos muito bem nos recebe na cidade) a visitar as novíssimas instalações do Centro Cultural de Chaves, pelos vistos nascido da teimosia de um grupo de jovens que queriam ver na sua terra uma academia de artes capaz de prender à sua cidade os talentos que, por falta de ofertas adequadas, costumam fugir para Lisboa e para o Porto.

Escusado será dizer que fiquei bastante agradado com o que vi e ainda fiquei mais por ter percebido que poderá ser (se já não é) algo que ao mesmo tempo aglutine e incremente o gosto, interesse e cultivo pelas artes, funcionando o CCC também como um pólo de divulgação de eventos que muitas das vezes não saem de Lisboa e do Porto.

Tudo isto para dizer que são projectos como este que poderão fazer a diferença, não só em termos puramente artísticos e de formação mas também funcionando a favor das cidades que os acolhem, sendo uma ferramenta fundamental para a descentralização da cultura, isto sem a colocar numa perspectiva distante e pomposa, podendo [a cultura] chegar a um grande número de pessoas e sob os mais variados estilos e formatos.

Famalicão é uma excepção

Como um bom exemplo de uma sala que já compete com os habituais espaços culturais da Capital e da Invicta, recordo que a Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão já entrou no roteiro de muitos artistas nacionais e internacionais, colocando a cidade no mapa dos itinerários artísticos de Portugal, assumindo um especial relevo a música dita popular e urbana.

(Abro aqui um parênteses para fazer um mea culpa, pois ainda não conheço a Casa das Artes de Famalicão, bem como também não conheço alguns dos pequenos novos espaços culturais de Lisboa, isto para não falar do Porto, cidade que já há muito anos não visito.)

A cultura é luxo ou necessidade?

É claro que não pretendo que apenas Vila Nova de Famalicão seja excepção. Se cada pequena/média cidade de Portugal tivesse uma sala/espaço com uma programação regular, abrangendo todo o tipo de manifestações culturais, e levando até às pessoas artistas consagrados mas também aqueles que querem mostrar coisas novas e diferentes, já a ditadura da televisão não seria capaz de impor tão facilmente espectáculos que muitas das vezes só provocam sorrisos anestesiados e pouco mais (também contra mim falo pois de vez em quando também visiono algum telelixo, nem que seja para depois o criticar).

Uma vez mais devo estar a ser ingénuo pois muitas vezes é muito mais fácil ficar em casa, de roupão e pantufas, no quentinho do sofá, do que sair de casa para ir ver um espectáculo ou uma exposição, ou até um filme ou uma peça de teatro. Sei bem que no lufa a lufa do dia, e no contar dos tostões que têm de ser esticados até ao fim do mês, a dita cultura fica sempre a perder, não entrando nem nos orçamentos nem nos horizontes de muitas pessoas. Mas se até a capacidade de ver e conhecer coisas novas se esvair então, aleluia, bem podemos ficar descansados pois afinal o raio da globalização também serve para ter gente mansa, a consumir enlatados massificados.

Baixe-se o pano e até à próxima crónica.

Por: Bruno Cunha


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