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Edição de 30-07-2010
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Opinião

Cravo & Ferradura

Nem tudo o vento levou

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A Av. D. João I era uma artéria onde a sombra caía como um manto refrescante sobre os passeios, as casas e os automóveis.

Lembro-me muito vagamente da primeira vez que fui a Chaves. Era ainda criança, talvez num estágio a roçar a pré-adolescência, e aquilo que ficou na minha memória foi a entrada na cidade por uma avenida comprida, ladeada de frondosas árvores. Infelizmente, tal como as árvores, tudo o resto voou da minha lembrança.

Poderia achar que tal episódio seria apenas um mau sonho mas a minha mulher confirma: a Av. D. João I era uma artéria onde a sombra caía como um manto refrescante sobre os passeios, as casas e os automóveis. Suspeito que não foi o vento nem algo divino que fez voar as árvores. Pairou por ali a (má) obra da mão humana, certamente.

Os anti-Midas existem

Tal episódio, como outros semelhantes por todo o país, fazem-me sempre desconfiar que misteriosas entidades, com estranhos desígnios, têm o condão de muitas vezes possuírem os poderes do anti-Midas: tocam onde não devem e transformam aquilo que pode ser considerado como ouro em vulgar pechisbeque ou, pior ainda, em pura bosta, se me é permitida a franqueza.

É claro que, ao longo dos anos, com novas abordagens sobre o urbanismo e o paisagismo urbanos, tende a existir uma nova visão sobre a preservação e requalificação das zonas verdes das cidades e vilas portuguesas. Mas não nos iludamos: o monstro do betão armado está sempre pronto a atacar e é implacável pois não tem nenhum tipo de critério sobre o espaço verde (ou de outra cor) a devorar.

Já uma vez referi numa das minhas crónicas que, infelizmente, muitas das cidades do interior ao longo dos anos também têm seguido uma política de urbanismo selvagem, tão em voga nas cidades do litoral. Por exemplo, todos os anos, quando regresso a Chaves vejo prédios a florescerem em zonas de vivendas, parecendo não haver nenhum respeito pelo enquadramento arquitectónico dos locais em questão, misturando-se alhos com bugalhos, tendo como resultado uma autêntica salada russa de paladar duvidoso e de controverso planeamento urbanístico.

Uma santíssima trindade

A propósito de muitas das atrocidades que se cometem nas cidades portuguesas, houve alguém que um dia iluminou-se numa grande definição, referindo que existe uma santa trindade à solta nas urbes portuguesas, constituída por câmaras municipais, empreiteiros e clubes de futebol. Eu diria antes que é uma ménage a 3, na qual o triunvirato envolvido goza como o caraças mas quem realmente se lixa é o mexilhão.

Convém dizer que não gosto de generalizações e não meto todas as câmaras, empreiteiros e clubes de futebol no mesmo saco. Logo, ainda há lugar para acreditarmos que muitas das obras que estão projectadas respeitam planos urbanísticos bem concebidos, sem que construir seja, no fundo, sinónimo de destruir, nem havendo oportunidade para o aparecimento de sacos azuis ou outros, passados por baixos das mesas negociais.

Chamem-me totó à vontade mas eu ainda quero acreditar (apesar de ser uma pessoa tendencialmente pessimista) que as câmaras deste país andam mais atentas e informadas sobre aquilo que devem ou não devem fazer em todos os aspectos das suas competências, e sejam capazes de escolher parceiros capazes de fazerem obra sem que o vento, ou outras forças poderosas, façam ir pelos ares áreas verdes que tanta falta fazem às cidades.

Até à próxima crónica (acredito que o vento não a fará ir pelos ares).

Nota: Na minha última crónica (intitulada A raia que o parta!), logo no primeiro parágrafo, onde se lê seja pela ignorância por e simples de alguns episódios deveria antes ler-se seja pela ignorância pura e simples de alguns episódios. Isto de dar gralhas nas expressões idiomáticas é como o vento: nunca se sabe que raio de rabanada as pode redemoinhar. O que vale é que a minha mulher deu pela brisa do meu disparate...

Por: Bruno Cunha


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