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Edição de 30-07-2010
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Arquivo: Edição de 24-10-2008

Opinião

Cravo & Ferradura

A raia que o parta!

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Até a memória portuguesa parece não ter prestado a devida homenagem a Cambedo!

A História do nosso país não deixa de nos surpreender, seja pelo aparecimento de factos novos, seja por se analisarem acontecimentos já relatados por um diferente prisma, seja pela ignorância por e simples de alguns episódios.

Vem isto a propósito de algo que este ano descobri, de uma forma quase acidental, na internet, e que foi o drama da aldeia raiana de Cambedo, no concelho de Chaves.

Para quem não sabe – por exemplo, eu não sabia – em 1946 esta aldeia foi cercada e bombardeada, e uma boa parte dos seus habitantes presa e deportada, sob o pretexto de acolherem bandidos, que afinal seriam guerrilheiros galegos em luta contra o franquismo.

Sendo Portugal um dos raros países europeus com as suas fronteiras estabilizadas há já muito tempo (leia-se mais de oitocentos anos), uma certa história – à qual eu não coloco um H maiúsculo – por vezes tentou sonegar factos que pudessem sair de uma norma centralizadora e uniforme.

É claro que episódios como este, ao desafiarem o poder central, foram silenciados em ambos os lados da fronteira. Depois, o decorrer dos anos assentaria a poeira sobre o que fosse inconveniente, varrendo-se para debaixo do tapete do esquecimento tudo aquilo que pudesse contrariar as versões oficiais.

Como um cão abandonado

Este Verão, não sem uma certa dose de romantismo no espírito, fui até Cambedo. Desejaria ter encontrado uma aldeia pitoresca e característica, tal como Vilarinho e Vilarelho, por exemplo. Mas não. Infelizmente, como muitas outras, na raia ou até longe dela, a aldeia estava silenciosa, sem pessoas à vista, num cenário que poderá prenunciar um abandono total dentro de pouco tempo. Sobre os tristes acontecimentos de 1946 apenas uma placa em galego. Até a memória portuguesa parece não ter prestado a devida homenagem a Cambedo! Um cão veio ter comigo, num olhar cabisbaixo mas meigo. Reparando em mim e no animal, a única pessoa que avistei em Cambedo, mesmo sem o saber, desferiu uma poderosa analogia relativa à sua aldeia: “Alguém abandonou esse cão por aqui. Se não fôssemos nós, o animal morreria à fome.”

Longe de querer fazer chorar as pedras da calçada, muitas vezes o esquecimento e o abandono que o poder central (e também algum local, temos de ser francos) vota aos lugares mais longínquos do país, continua a exibir os mesmos sintomas de um centralismo cego e esmagador. Depois de se apagar a memória nada mais resta que a ignorância, perdendo-se no tempo pedaços de História únicos, que, por terem acontecido numa distante raia, são mais fáceis de rever segundo as conveniências do momento ou de atirar para o caixote do lixo.

Adiante, que um dia destes ainda voltarei a este assunto.

Biba la lhéngua mirandesa!

Se até aqui esta crónica foi uma completa ferradura, no que resta dela vamos tentar plantar alguns cravos.

Como se sabe, o mirandês é a 2ª língua de Portugal. Restrito a uma zona muito específica do país, e falado por pouco mais de 15.000 pessoas, tem sido feito um considerável esforço para que não morra. A recompensa veio em 1999, com o reconhecimento oficial da língua, aprovado na Assembleia da República. Entalada entre o português e o castelhano, à partida estaria condenada à extinção (algo que infelizmente paira sempre como uma sombra) mas o simples facto do poder central não ter fechado os olhos à sua existência, foi um primeiro passo para que continuasse viva. Obviamente que isso só foi possível com a dinâmica das forças locais que se fizeram escutar alto e bom som, pondo à prova a máxima popular “Quem não chora não mama!”

Nota: Coincidindo com a minha última crónica sobre a Eurocidade Chaves-Verín, o projecto acabou de ser apresentado em Bruxelas; também na minha última crónica, no subtítulo “O desenvolvimento não só uma roleta” falta a palavra é, devendo ler-se “O desenvolvimento não é só uma roleta”. A falta que uma letra faz. Sendo assim, sai um cravo para a autarquia flaviense, atire-se com uma ferradura à minha pessoa.

Por: Bruno Cunha


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