Arquivo: Edição de 26-09-2008
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Cravo & Ferradura Bons e maus exemplosNo início desta crónica, para que me enquadre perfeitamente no cenário de Portugal, refiro que as minhas raizes estão no Alentejo, Setúbal e Oeste (Serra Montejunto e Torres Novas) mas ainda muito novo costumava, quase todos os anos, e a reboque dos meus avós maternos, visitar as Beiras e Trás-os-Montes. Lembro-me de, ainda noite cerrada, ser arrancado ao calor da cama para nos pormos a caminho. Como se sabe, há 30 anos atrás as estradas não eram as de hoje e chegar a qualquer ponto mais recôndito do país era uma odisseia de muitas horas. Nesses tempos, o meu poiso em Trás-os-Montes era a aldeia de Vilarinho de Samardã, no concelho de Vila Real, localidade onde Camilo Castelo Branco viveu entre os anos de 1839 e 1841. Aí, frente ao crepitar de uma acolhedora lareira, sentia-se uma ruralidade mais profunda, algo que hoje já não existe de uma forma tão vincada, apesar das grandes diferenças e assimetrias que ainda existem entre os maiores centros urbanos do litoral e todo o interior, que tende a uma desertificação que não parece conhecer um ponto de viragem. Fruto das solicitações próprias da adolescência, a partir desse período da minha vida deixei de rumar às terras do Norte (de facto, pouco visitei qualquer outro ponto do país). Há cerca de 15 anos recomecei a redescobrir Portugal. Primeiro foi o Gerês mas não deixando de piscar o olho a Trás-os- -Montes. O bater do meu coração por essa zona do país disparou de novo quando conheci a minha mulher, lisboeta como eu, mas originária de famílias transmontanas, mais concretamente de Chaves, por parte do pai, e Vale das Fontes (Rebordelo), por parte da mãe. No regresso a Trás-os-Montes, a primeira impressão – algo que me tinha já ficado de miúdo – faz jus ao seu nome, uma sucessão contínua e ondulada de elevações, nas quais a curiosidade e o olhar são impelidos a descobrir o que se esconde por trás de cada uma delas. E o que se esconde por trás de cada monte, em cada cidade, vila ou povoação, tem sempre duas faces, uma mais luminosa, outra mais sombria, por vezes. Começo pelo menos bom, dando como exemplo alguns erros urbanísticos de algumas cidades transmontanas, que parecem querer tender para uma cópia de uma qualquer Reboleira ou Cacém. Exemplifico com Chaves – cidade que todos os anos visito com satisfação. Localizada num vale aberto, e sem aparente falta de espaço, é com alguma tristeza que por vezes se vê um ordenamento desconexo, onde prédios de vários andares despontam em bairros de vivendas ou de edifícios mais térreos, com varandas a roçarem árvores e paredes a encurtarem a largura dos passeios. Obviamente que se tenta contrariar essa tendência com melhorias substanciais na parte velha da cidade, quiçá em busca de uma candidatura a património mundial. É claro que é apenas um exemplo mas o que acho sempre estranho é que não se aprenda com erros cometidos noutras partes do país, nomeadamente nas grandes urbes, onde os atentados urbanísticos são como cogumelos. Corrosivamente só posso concluir que é mais fácil seguirem-se os maus exemplos do que os bons. E bons exemplos existem em Trás-os-Montes, felizmente. Este Verão, nas minhas habituais deambulações, visitei a Barragem do Azibo, tendo ficado encantado com as praias fluviais, devidamente equipadas com estruturas adequadas. Apenas um reparo: acho que deveriam existir caixotes do lixo mais pequenos, junto à zona da praia. Claro que existem contentores de lixo mas, muitas vezes, se as pessoas não têm um recipiente mesmo à mão de semear é quase certo e sabido que o lixo fica espalhado aos caprichos do vento. Na próxima crónica vejam como o meu olhar forasteiro foi capaz de voar nos céus de Trás-os-Montes. Por:
Bruno Cunha |
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